Editorial de Luís Baptista-Martins: A persistente fragilidade das Beiras e da Serra da Estrela

A manchete de O INTERIOR da semana passada – «Beiras e Serra da Estrela continuam abaixo da média nacional em desenvolvimento regional» – a não surpreende precisamente porque denuncia algo que se repete como um lugar-comum: o diagnóstico é conhecido; a mudança, inexistente.
O comentário do presidente do Turismo Centro sobre a BTL – de que no próximo ano a entidade que preside poderá não participar na feira de turismo de Lisboa, pois, como referiu Rui Ventura, «quem conhece a BTL percebe que é o palco principal do Turismo de Portugal, mas que não pode ser uma feira de vaidades», considerando que as entidades presentes promovem o seu território para os técnicos do território vizinho. Não se trata apenas de uma constatação: é a verificação de uma prática recorrente onde o espetáculo substitui a estratégia, onde a visibilidade momentânea se confunde com estratégia de desenvolvimento. Há algo de trágico em gastar-se tempo e recursos a encenar a vitalidade que se deixou escapar. E uma inacreditável falta de ideias. A BTL, como a maioria das feiras do género, pode levar muita gente, mas o resultado é nulo ou quase: vai-se à BTL sonhar com férias paradisíacas, ver imagens, vídeos e encenações exóticas e populares, recolher brindes e panfletos que depois vão para o lixo sem pensar mais nos destinos. Uma feira de vaidades onde governantes, presidentes de câmara, vereadores, dirigentes institucionais ou funcionários autárquicos e de comunidades intermunicipais ocupam mais metros quadrados do que operadores ou turistas…
Mas o que podemos fazer de diferente? Por que insistimos nas festas? Em primeiro lugar, porque festas e feiras dão retorno imediato e mensurável: pessoas nas feiras, imagens nas redes sociais, manchetes no verão. Depois, porque organizar um evento é mais fácil institucionalmente do que desenhar e executar políticas complexas de longo prazo: incubadoras, parques tecnológicos, sistemas de formação dual, incentivos à produção local com escala – essas exigem paciência, coordenação intermunicipal, capital humano e, sobretudo, coragem para recusar o aplauso fácil. Em terceiro lugar, porque há, nas estruturas de governação local, uma incapacidade para pensar a região como organismo integrado: cada concelho atua como ilha, cada festival como bandeira, e a soma das iniciativas não perfaz massa crítica. E em quarto lugar, sim, as pessoas que vivem em cada cidade, vila ou aldeia também têm direito à sua festa ou feira, também merecem um momento de diversão, mas o excesso é contraproducente e lamentável – a Feira de S. Mateus, em Viseu, é o exemplo mais absurdo: um mês de feira e festas popularuchas, que são um enorme regabofe que deixa pouco para além do estertor do último dia.
Não pretendo com isto negar o valor cultural, social ou até económico de festivais, feiras ou festas. A cultura e o convívio são parte do tecido social e, bem geridos, podem ser âncoras de identidade e de atração. O problema surge quando se transformam em fim e não em meio: quando o objetivo passa a ser a festa em si, e não o que essa festa deixa em legado.
Que outra ideia, então? Primeiro, impor critério de legado a todas as intervenções financiadas com recurso público: cada euro investido num evento deveria exigir um plano explícito de retorno – não apenas em visitantes, mas em contratos para produtores locais, formação para jovens, infraestrutura acessível e ações que perdurem após os aplausos. Segundo, pensar a escala: consensos regionais e instrumentos de cooperação vinculativa que façam convergir orçamentos e projetos, porque não se constrói massa crítica com iniciativas desconectadas. Terceiro, priorizar investimento em capital humano e em capacidades produtivas – não em abstrato, mas com programas que liguem formação a emprego real: estágios, bolsas de retorno para jovens qualificados, incentivos a startups rurais, teletrabalho apoiado por conectividade robusta. Quarto, reposicionar a presença externa da região: quando participar em feiras como a BTL, fazê-lo com objetivos comerciais claros e mensuráveis – parcerias, vendas, contratos – em vez de mera exposição simbólica.
Há um imperativo moral e estratégico: transformar o património natural e cultural em capital produtivo que reverta em salários, empresas e futuro para quem reside e para quem poderia regressar. Isso exige algo mais do que boa vontade: exige avaliação exigente, prioridades orçamentais e a disposição de sacrificar o espetáculo imediato em favor de uma trajetória que valha para além do fim de semana festivo.
Se as Beiras e a Serra da Estrela quiserem realmente deixar de ser um epíteto estatístico e passar a ser um caso de resiliência e reinvenção, terão de aceitar uma mudança de idioma político. Trocar troféus de presença e fotografias nas redes por indicadores de retenção de jovens, por crescimento das exportações regionais, por projetos empresariais sustentáveis. Talvez então a próxima participação na BTL não seja para distribuir folhetos, mas para assinar contratos que mudem, de facto, o mapa económico da região.
No fim, não se trata de demonizar a festa. Trata-se de questionar a prioridade. Há quem queira que a sua terra seja lembrada por luzes e concertos; há quem queira que seja lembrada por oportunidades. Sem audácia estratégica, as vaidades continuarão a brilhar muito e a produzir pouco.

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Luís Baptista-Martins

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