Opinião de António Godinho Gil: Uath*

As imagens apoteóticas da chegada ao país dos elementos da flotilha “humanitária” de Gaza, compõe uma iconografia que requer alguma atenção. A sua gramática é tão densa quanto enganadora. Vamos pôr de lado a vertente política do episódio. Ou a incomensurável mentira que lhe subjaz. Foquemo-nos na arrumação conceptual proposta por Barthes: a imagem como signo e retórica, versus a imagem como afecto e encontro. No primeiro caso, para prevenir a dispersão de uma polissemia indesejada, importa proceder à ancoragem do sentido, através de uma legenda crítica. Na sua obra “A Câmara Clara”, Barthes abandona a análise puramente estruturalista para se focar na sua relação pessoal com a fotografia. Fixando essa leitura em torno de dois conceitos fundamentais: o Studium é o Punctum. O primeiro é a dimensão cultural, histórica e política da fotografia. Representa o interesse geral, o contexto social. O punctum é o elemento que escapa às regras. Um detalhe, um traço ou uma ferida na imagem que “fura”, fere ou atinge o observador, de forma visceral e pessoal, quebrando o studium. Se verificarmos nestas imagens, aparentemente, essa ferida não existe. Semeando uma estranheza que gera incómodo. Como se houvesse um esforço sobre humano dos protagonistas em apagar espaços em branco. Como? Precisamente através da saturação do sentido. Recorrendo à cuidada organização do detalhe: o “dress code”, as bandeiras, a postura corporal, a ansiedade, tudo fala. Falam os corpos e os símbolos que os emolduram. Não os corpos como matrizes de uma revolução para repor uma (des)ordem antiga, como desejou Pasolini. Aqui, os corpos são meros adereços de uma trama sacrificial. O conjunto aproxima os protagonistas de uma dimensão profética, crística. São os novos apóstolos de um modelo messiânico de virtude. Ou seja, estamos perante uma construção. Cheia de signos codificados. Um exemplo de hagiografia sui generis, mas com todos os elementos característicos das religiões: acções exemplares em prol do semelhante (as boas obras), desapego, sacrifício pessoal, abnegação, martirologia qb. Noutra perspectiva, mais cínica, poderíamos afirmar que eles são as crianças sorridentes da democracia. Os beneficiários líquidos de um bem estar que conflitua com a consciência. As crianças mimadas e inocentes, a quem tudo é desculpado, pois são os guardiões do futuro. Os puti que guarnecem as imagens sacras. Aproximemos um pouco mais a lente. É então que detectamos o lado sombrio, escorregadio, deste embuste. Que subverte a tese de Barthes. Do ponto de vista funcional, damos conta de uma inescapável psicopatia, que Arno Gruen, no seu “A Loucura da Normalidade”, associou à figura do rebelde. Percebemos, pela cronologia, e contexto dos acontecimentos, que os protagonistas são os actores de uma realidade alucinada, que desmente as suas intenções e a sua retórica. Passando por compaixão aquilo que é egoísmo. Por ajuda humanitária o que é acção de propaganda. Por solidariedade uma mão cheia de nada. Por desinteresse a mais pura vaidade. Por activismo o “bildungsroman” do tédio. Para concluir, nestas imagens o punctum não é detectável, precisamente porque ocupa todo o espaço. As imagens são, elas próprias, detalhes de um studium mais vasto e programático. Dito de outra forma, são instrumentos de propaganda piedosa e nada mais do que isso.
2. O fascínio das pequenas coisas! Mania de poetas e avaliadores de casas… Apetece-me agora reparar nos pequenos e fascinantes pormenores da inteligência. Um exemplo. Estar em aceso diálogo com uma mulher deslumbrante, num bar nocturno, diante de uma mesa já com algumas garrafas. Não sabeis, mas nessa altura já todos os vossos poros comunicam, meus caros! Nada escapa à mobilização geral do vosso talento e da vossa fragilidade. E se essa mulher for mais inteligente do que vós? Keep calm! O mais natural é que isso aconteça. Nesse caso, meus bravos, não desistam. Recuem até aos primórdios da linguagem. Inventada precisamente para estes momentos delicados. Mostrem tudo. Como quem deixa escapar o consentimento, na última oferta de um acalorado regateio. Ela fala mais depressa do que vocês. Pensa a velocidades de cruzeiro. Chega sempre antes de vocês onde quer que seja. Mas nunca a aborreçam enquanto espera! Metam o turbo. Voem. Inventem! Tentem recriar o encontro de duas aves exóticas que se reconhecem no voo e olham para o mundo com sobranceria. “Olha, também por aqui!?” A certa altura, percebereis que ela chega antes, mas só porque sabe que lá vos encontra. A poesia é muito exigente. De nós, “só” requer atenção, espanto e despojamento. Para quando ela se manifestar, na sua visceralidade, ficarmos capturados por esse momento. Mas essa epifania não é igual para todos. Nem gratuita. Longe disso. O poema, quando vier, só chega depois. Escrito numa língua primitiva que é ainda preciso decifrar.

* No calendário vegetal celta, significa “Pilriteiro”

** O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

Sobre o autor

António Godinho Gil

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