Opinião de Quelhas Gaspar: A Muralha da Guarda: entre a memória e o abandono

A muralha da Guarda não é apenas um vestígio do passado. É, antes de mais, a razão material da própria existência da cidade enquanto comunidade organizada, protegida e capaz de se afirmar ao longo dos séculos. Foi ela que garantiu segurança, que permitiu a fixação da população, que sustentou a autonomia urbana e que deu forma à cidade que hoje conhecemos. No entanto, aquilo que outrora foi condição de sobrevivência encontra-se hoje, em muitos dos seus troços, votado ao abandono, à degradação e a uma preocupante ausência de cuidado público.
Ao longo do tempo, o crescimento urbano foi transformando a muralha. Em vários pontos, ocupou-a, integrou-a no casario e, não raras vezes, levou à sua destruição parcial. Esse processo, contudo, não pode ser entendido como uma constante ao longo de toda a história da cidade. Durante séculos, enquanto a muralha desempenhou funções defensivas ativas, não eram permitidas construções junto a ela. A defesa impunha essa regra com rigor absoluto.
Do lado interior, o espaço junto à muralha tinha de permanecer livre para permitir a circulação dos defensores e o acesso rápido às estruturas. Do lado exterior, qualquer aproximação edificada constituía um risco grave, podendo facilitar o avanço inimigo. Por essa razão, não só não se permitiam construções, como, em situações de perigo, se procedia à sua destruição, impedindo que servissem de apoio a forças adversárias. A muralha exigia espaço – e esse espaço era respeitado enquanto a sua função fosse vital.
Só quando essa função se perdeu é que o crescimento urbano começou a avançar sobre a própria muralha. A partir desse momento, aquilo que fora uma estrutura essencial à sobrevivência passou a ser encarado como um obstáculo ou, na melhor das hipóteses, como um suporte disponível. É nesse contexto que surgem construções adossadas, ocupações indevidas e alterações profundas da sua configuração original.
Importa, por isso, distinguir claramente dois momentos: um primeiro, em que a muralha é respeitada e protegida como elemento central da defesa da cidade; e um segundo, já tardio, em que a sua desvalorização permite a sua ocupação e transformação. Esta
distinção é fundamental para compreender que a degradação atual não é uma inevitabilidade histórica, mas o resultado de escolhas mais recentes.
E é precisamente no presente que o problema se torna mais evidente.
Há troços da muralha onde a degradação é visível e progressiva. A ausência de limpeza regular permite o crescimento descontrolado de ervas, arbustos e pequenas árvores, cujas raízes penetram nas juntas da pedra, abrindo fissuras e acelerando a desagregação da estrutura. A isto juntam-se cavidades que servem de abrigo a pequenos mamíferos, contribuindo para a fragilização interna dos muros.
Em certos pontos, a situação é ainda mais grave. A construção de estruturas modernas em proximidade imediata da muralha criou ambientes de humidade persistente, impedindo a exposição solar e a ventilação natural. Estas condições favorecem a deterioração dos materiais e colocam em risco a estabilidade de segmentos inteiros, alguns já em situação de vulnerabilidade evidente.
Por outro lado, verifica-se a ocupação direta da muralha por edificações privadas, como se se tratasse de espaço disponível e não de um bem patrimonial público. Esta apropriação revela falhas graves de fiscalização e uma preocupante ausência de reconhecimento do valor coletivo da estrutura.
Perante este cenário, torna-se difícil compreender a ausência de intervenções básicas por parte das entidades responsáveis. Nem a Câmara Municipal nem a Junta de Freguesia têm assegurado operações regulares de manutenção, como a limpeza controlada da vegetação, absolutamente essenciais à preservação de qualquer estrutura histórica.
Tem sido, por vezes, invocado o argumento de que a remoção da vegetação poderá comprometer a estabilidade de alguns troços da muralha. Embora seja verdade que intervenções bruscas e sem acompanhamento técnico possam provocar danos localizados em estruturas já fragilizadas, isso não pode servir de justificação para a ausência prolongada de manutenção. A conservação patrimonial exige precisamente intervenções controladas, faseadas e tecnicamente acompanhadas, capazes de travar a progressão da degradação sem colocar em risco a estabilidade da estrutura.
Não intervir não protege – acelera a degradação.
A muralha da Guarda não pode continuar a ser tratada como um resíduo urbano, tolerado mas não cuidado. É um elemento estruturante da identidade da cidade, um testemunho material da sua história e um património que exige responsabilidade coletiva.
O estado atual de abandono não é inevitável. É o resultado de opções – ou da ausência delas. E, como tal, pode e deve ser revertido.
Importa, por isso, recolocar a muralha no centro das preocupações da cidade. Não como memória distante, mas como realidade presente que exige conhecimento, cuidado e ação. Porque aquilo que durante séculos foi defendido com rigor e prioridade absoluta não pode, hoje, ser deixado à mercê do tempo, da indiferença e do esquecimento.

* Historiador/ técnico de Património

Sobre o autor

José Ramos Pires Manso

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