Opinião de Daniel Lucas: O mundo anda ao contrário. Ou somos nós que crescemos?

Escrito por Daniel Lucas

No mês passado vi um pai insultar um árbitro num jogo de crianças. Na semana passada li mais uma notícia sobre crianças abandonadas por aqueles que deveriam ser o seu abrigo. Não há dia em que não ouça uma buzina agressiva porque o carro da frente demorou dois segundos a arrancar. E dei por mim a pensar: o mundo anda ao contrário. Ou talvez sejamos nós que crescemos e começamos a ver aquilo que antes não víamos.
Vivemos um tempo estranho. Nunca houve tanta informação, tanta tecnologia e tanta comunicação. No entanto, nunca pareceu tão difícil compreender o outro. Há menos paciência. Menos tolerância. Menos escuta. Menos empatia.
No futebol, o jogo já não termina dentro das quatro linhas. Prolonga-se em insultos a árbitros, em tensão entre bancadas, em agressividade que ultrapassa o desporto. No trânsito, um segundo transforma-se em conflito. Na escola, multiplicam-se os atritos entre alunos, professores e famílias. Na política, o diálogo cede lugar à polarização e ao ruído. E depois há o mundo virtual. Criado para aproximar, tantas vezes tornou-se um espaço de confronto. Comentários rápidos, julgamentos imediatos, palavras duras lançadas sem respirar nem reflexão. Atrás de cada ecrã há alguém. Um pai. Uma mãe. Um filho. Uma filha. Com histórias, fragilidades e limites que não conhecemos. Há palavras que, mesmo sem corpo, deixam marcas. Mais profundas do que se imagina. Há ainda os casos que nos continuam a chocar. Crianças abandonadas, famílias desfeitas, idosos sozinhos. E a pergunta repete-se, onde nos perdemos?
Byung-Chul Han fala de uma «sociedade do cansaço». Um tempo em que a pressão para fazer, responder e produzir esgota a capacidade de sentir. Uma sociedade cansada é uma sociedade mais dura. Mais impaciente. Mais fechada. Talvez estejamos a perder a arte de cuidar. Cuidar de filhos. Cuidar de pais. Cuidar de amigos. Cuidar de quem está perto. E, por vezes, cuidar também de quem chega de longe.
Nestas últimas semanas trabalhei com dezenas de migrantes. Pessoas vindas de diferentes países, com histórias diferentes, mas com o mesmo objetivo: recomeçar. O que mais procuram não é apenas trabalho ou documentação. É pertença. É serem vistos. É serem tratados como pessoas. E isso não é diferente daquilo que tantos portugueses procuraram quando partiram para França, Suíça ou Alemanha. Também nós já fomos estrangeiros. Também nós já fomos o outro. Talvez a empatia comece na memória do que fomos antes de sermos quem somos.
Enquanto técnico social, cruzo-me diariamente com histórias que raramente chegam às notícias. Histórias de solidão, de resistência, de silêncio. Pessoas que não precisam de respostas perfeitas. Precisam de presença. O problema do nosso tempo não é a falta de informação. Mas a falta de encontro. Talvez por isso é que sentimos falta da empatia, do amor e da solidariedade. Não porque tenham desaparecido. Mas porque precisam de tempo. E o tempo tornou-se o bem mais raro dos nossos dias. O sociólogo Zygmunt Bauman dizia que vivemos numa «modernidade líquida», onde tudo é rápido, descartável e provisório. Talvez seja essa velocidade que nos esteja a roubar a profundidade.
Acredito que a Guarda pode continuar a ser muito mais do que um lugar no mapa. Pode ser uma terra de acolhimento. Uma terra que sabe o que é partir e regressar. Que conhece o valor da proximidade. Que pode continuar a afirmar-se como lugar de integração e humanidade. O município, as instituições, as associações, as empresas e tantos cidadãos anónimos fazem esse trabalho todos os dias, muitas vezes sem palco nem reconhecimento. A empatia não é uma questão de ideologia. É a capacidade de reconhecer a nossa própria humanidade no rosto de quem está à nossa frente.
Talvez o mundo não esteja ao contrário. Talvez esteja apenas demasiado depressa. E quando tudo corre depressa demais, deixamos de ver quem fica para trás. Esquecemo-nos do essencial. Antes de sermos opiniões, funções ou pertenças, somos pessoas. As pessoas precisam de ser vistas, de ser ouvidas e de pertencer. A forma como cuidamos uns dos outros é, no fim, a única verdadeira medida de uma comunidade. Porque aquilo que fica não são as discussões que vencemos. Nem as razões que tivemos. Mas a humanidade que fomos capazes de oferecer.

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Daniel Lucas

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