O servo provinciano continua a encontrar os sinais consumíveis mais importantes da atual grandeza humana apenas no “doutor” e “engenheiro”. As duas categorias – tão valorizadas no século passado – permanecem no seu imaginário como as únicas capazes de aliar competência e rigor ao empreendedorismo inato: nasceram para ser doutores e engenheiros. De sucesso. Eles, não quaisquer outros. Por muito empreendedor que alguém possa ser, se manco de um dos títulos, acaba por não passar de alguém que, sendo trafulha, teve “sorte”. Devendo, evidentemente “sorte” ser entendida mais como a capacidade de não se deixar apanhar nas trafulhices do que propriamente pela dita. Aliás, essa, calhando ocorrer à séria, chega a ser, para os que a consideram apenas digna dos bons dos doutores e engenheiros, uma verdadeira afronta e, numa pulsão quase lúbrica, não se coibirão de a depreciar até ao nível mais infame que lhes ocorrer.
Não admira por isso que, aquando da criação das licenciaturas no Instituto Politécnico da Covilhã, houvesse quem, indignado, exclamasse que por tal andar ainda haveria quem fosse buscar licenciaturas a Alfarazes. Claro que não tardou a que fosse possível ir “buscá-las” lá para os lados do Zambito. Não vinham de Alfarazes, mas em termos valorativos, para esta gente, era como se viessem. Uma licenciatura a valer, das importantes, tinha de vir de uma universidade. Não de qualquer uma como a da Serra. Isso não passava de serranices para inglês ver. Tinha de vir de Universidades como as de Coimbra, Porto e Lisboa. A menorização de todo o ensino politécnico e algum do universitário ficava assim normalizada e normalizada parece manter-se.
A maioria dos Institutos Politécnicos bem trataram de deixar de restringir a sua oferta formativa a umas quantas licenciaturas e alguns mestrados, mas daí a serem considerados mais universais era e, pelos vistos, continua a ser outra conversa. Pois quando finalmente lhes reconhecem alguma da sua universalidade, esta não pode ser inteira, tem que ser politécnica. Os presidentes serão substituídos por reitores e adquirem mais autonomia, têm é de continuar “politécnicas”. Contudo, perante o menosprezo da história pelos bons dos Institutos Politécnicos, o que mais espanta não é isto. O que mais espantará é o facto de toda a gente, nas respetivas capitais de distrito, ter ficado tão contente com a simples troca de “Instituto” por “Universidade” que, de tão ocupada com a festa, não ache estranho que assim seja. Na pressa de festejar a aprovação do decreto, esquecendo que a troca de nomes nem sequer decorre de qualquer mérito que as instituições legitimamente possam reivindicar, mas tão só do seu integral cumprimento das regras instituídas, toda a gente desata em loas aos protagonistas das instituições, ao cão e ao gato e, pronto, estão todos felizes.
Depois ainda nos havemos de admirar que ninguém nos leve a sério e não saiamos da cepa torta a que, mais por preguiça do que por outra coisa qualquer, por este interior afora, nos remetemos. Mas, lá está, pelo menos nas parcerias e projetos internacionais, os Institutos Politécnicos, ao passarem a Universidades Politécnicas, só por já levarem “Universidade” no nome, já nem destoarão tanto.


