Opinião de Romeu Curto: O café como último parlamento

Escrito por Romeu Curto

(Um esclarecimento, antes de avançar. O texto do mês passado, “Para que serve, afinal, um teatro municipal?”, não foi escrito contra nenhum teatro em particular, e muito menos contra qualquer um dos teatros da nossa região. Era uma reflexão sobre a função pública deste tipo de equipamento, sem destinatário concreto. Como costumo fechar as crónicas com sugestões culturais, fui buscar nesse mês a programação aos teatros municipais da zona, e parece que essa coincidência foi suficiente para sugerir uma intenção que o texto não tinha. Não tinha. Fica o esclarecimento, e fica também o agradecimento: ler com atenção, mesmo para discordar, é a melhor coisa que pode acontecer a quem escreve)

Eu ainda apanhei o fim dessa geração. Não a vivi por inteiro, mas ainda senti o calor. Ainda fui a tempo de ver o café como uma espécie de parlamento de bairro, sem atas, sem ordem de trabalhos e, curiosamente, com mais escuta do que muitos debates oficiais.

Lembro-me de ir com o meu avô para o Grupo Recreativo do nosso bairro, onde passava muitas tardes de sábado, algumas tardes depois da escola e alguns domingos. A minha preferência, como é fácil de adivinhar, não era exatamente a observação sociológica do fenómeno. Era jogar matraquilhos com os amigos. O problema é que nem sempre havia as moedas de vinte cêntimos necessárias, o que obrigava a uma arte negocial muito precoce e muito útil para a vida adulta: pedir, esperar, convencer, inventar. Quando não dava para jogar, ficávamos a ver. E ver, naquele tempo, também era uma forma de aprender.

No meu bairro, já nessa altura, ouvia os mais velhos dizerem que o edifício antigo do Grupo Recreativo é que era bom, que o novo não era igual, que antes sim, havia ambiente. Em criança, isso parecia-me conversa normal de adultos, essa modalidade desportiva em que o passado ganha sempre por larga margem. Mas hoje percebo melhor o que queriam dizer. Não estavam a falar apenas de paredes, de balcões ou da disposição das cadeiras. Falavam de uma função social que se ia perdendo. Falavam de um tempo em que o café era mais do que o sítio onde se bebia café.

A verdade é que a função do café era fascinante. Toda a gente se juntava ali para falar, ouvir, partilhar. Nem sempre com profundidade, é certo. Às vezes com alguma maledicência, alguma repetição, alguma teimosia. Mas havia ali uma coisa essencial: presença. O café era um espaço onde as pessoas se cruzavam sem necessidade de um motivo formal. Não era preciso marcar, convidar, justificar. Aparecia-se. E esse simples aparecer mantinha viva qualquer coisa que hoje se está a tornar rara: a convivência espontânea.

No meu caso, esta perceção começou cedo, porque fui criado em paralelo com uma mercearia/café. Os meus pais tinham uma mercearia com café, e eu passava aí grande parte do meu dia depois da escola. Cresci a ouvir conversas de adultos antes de as compreender, a ver entrar e sair gente do bairro, a perceber que havia uma coreografia própria naquele espaço: quem vinha cedo, quem chegava só ao fim do dia, quem falava muito, quem se sentava só para ouvir, quem pedia fiado, quem trazia novidades, quem vinha apenas confirmar se o mundo continuava no lugar.

E foi também aí que se foi tornando percetível a alteração do ambiente. Havia cada vez menos pessoas novas. As pessoas idosas, que eram o verdadeiro arquivo vivo do bairro, iam desaparecendo. E com elas desaparecia não apenas a clientela, mas uma forma de ocupar o espaço. Uma forma de estar. Uma forma de fazer do café um prolongamento da rua, da casa e da comunidade.

Não quero generalizar abusivamente, porque sei bem que a realidade de um bairro não explica uma cidade inteira, muito menos um país. Mas parece-me, ainda assim, um facto. Pelo menos no meu bairro, os cafés foram-se tornando menos necessários porque o bairro também se foi tornando menos relacional. As pessoas passaram a estar menos tempo fora de casa, a conversar menos sem objetivo, a cruzar-se menos. E um café sem essa circulação humana perde a sua principal razão de ser. Fica o balcão, fica a máquina, fica a televisão ligada, mas já não fica o essencial.

Talvez por isso haja cada vez menos cafés no meu bairro. Não apenas por razões económicas, embora essas contem muito. Mas porque também desapareceu uma cultura de bairro que os sustentava. O café não morreu sozinho. Morreu um pouco com a erosão do convívio, com o enfraquecimento da vida associativa, com a substituição da conversa pela pressa, e da presença pelo ecrã.

O que me impressiona, olhando para trás, é perceber que aqueles espaços, tão banais à primeira vista, cumpriam uma função cívica que ninguém lhes atribuía oficialmente. No café aprendia-se a ouvir os outros, mesmo quando não se gostava deles. Aprendia-se a conviver com opiniões absurdas, com histórias repetidas, com silêncios prolongados. Aprendia-se, no fundo, a fazer parte de uma comunidade real, e não apenas de um conjunto de pessoas que mora perto umas das outras.

Hoje fala-se muito de coesão social, de isolamento, de perda de laços, de bairros sem vida. E talvez valha a pena olhar para coisas aparentemente pequenas. Talvez a morte lenta dos cafés de bairro diga mais sobre a transformação das nossas cidades do que muitos relatórios pomposos. Porque quando um café fecha, não fecha só um negócio. Fecha um ponto de encontro. Fecha um pedaço de mundo.

Eu ainda apanhei o fim disso. Ainda fui a tempo de ouvir o ruído das chávenas, de ver os homens do bairro sentados a discutir o tempo, o futebol, a política e a vida alheia com a solenidade de quem realmente acreditava que aquilo importava. E importava. Talvez não resolvesse nada, mas mantinha o bairro vivo.

E, às vezes, estar vivo já era muito.

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junho, 2026 Romeu Curto

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