Opinião de Pedro Fonseca: Autárquicas 2025: Remar contra as marés

Escrito por Pedro Fonseca

Vêm aí as autárquicas. Os diferentes programas eleitorais vão consagrar por escrito os compromissos dos candidatos para os próximos quatro anos. De todos os candidatos e não apenas dos vencedores. São, por isso, documentos de um valor inestimável.
Um programa eleitoral sólido é aquele que alcança um equilíbrio entre as prioridades para o concelho e as prioridades dos seus munícipes. Atender às prioridades dos munícipes é relativamente simples. Isto porque, regra geral, o que as pessoas mais desejam é ver a sua qualidade de vida melhorada.
No concelho da Guarda, essa melhoria passa por ter acesso a espaços de lazer e de prática desportiva bem cuidados, a uma programação cultural regular e diversificada e a atividades de entretenimento variadas. Os guardenses também querem ver afirmada a capitalidade regional da Guarda e sentir que existem condições para que as gerações mais novas possam construir aqui o seu futuro.
As prioridades para o concelho e as prioridades dos munícipes podem nem sempre coincidir. Contudo, há um ponto em que convergem com naturalidade: a resolução dos problemas mais urgentes.
Ora, o concelho da Guarda apresenta uma taxa de desemprego residual e os casos de criminalidade violenta são extremamente raros. Não há congestionamento de trânsito nas horas de ponta nem constrangimentos com o sistema de transportes públicos ou com a recolha do lixo. Resta-nos, por isso, um problema conjuntural e dois problemas estruturais. O primeiro é o acesso à habitação e afeta todo o país. Os problemas que se arrastam há décadas, e que se fazem sentir por todo o interior, são a desertificação e a falta de competitividade.
Os programas eleitorais são o espaço certo para se perceber se as candidaturas têm soluções viáveis para enfrentar estes desafios ou se preferem prolongar a espera por uma solução milagrosa vinda de Lisboa ou de Bruxelas. O mesmo se aplica a muitos outros problemas, incluindo a prevenção e o combate aos incêndios e a melhoria dos serviços de saúde.
Nas últimas três décadas, o reforço da concorrência internacional provocou um processo de deslocalização da indústria para fora da Europa. O Velho Continente perdeu também força ao nível da investigação e da inovação (e, por consequência, da competitividade). Durante o mesmo período, Portugal viu as suas assimetrias territoriais agravarem-se profundamente, com o interior a revelar-se incapaz de reter e captar população jovem e de atrair investimento.
Foi precisamente ao longo dessas últimas três décadas que, a partir da Guarda, uma empresa logrou contrariar esse declínio e projetar-se para o mundo: a Coficab.
As duas unidades industriais da Coficab sediadas na Guarda produzem cabos elétricos para as principais marcas de automóveis do mundo e estão na linha da frente ao nível da investigação em cabos para mobilidade elétrica e condução autónoma. No total, empregam cerca de mil pessoas, incluindo muitos recursos humanos altamente qualificados e provenientes de outras localidades do país.
O grande protagonista desta história de sucesso ímpar é João Cardoso, que, enquanto diretor-geral da Coficab, soube remar contra as tendências adversas da desindustrialização da Europa, da perda de capacidade de inovação e da desertificação do interior. Tendo cessado recentemente essas funções, alguém com o seu percurso deveria ter uma passadeira estendida para ter um papel ativo na vida política. Mas, pelos vistos, o nosso sistema partidário ainda não atingiu esse ponto de maturação.
Enquanto esperamos, há um procedimento que se impõe: a atribuição do nome do engenheiro João Cardoso a um lugar nobre da cidade. João Cardoso fez tanto pela Guarda e pela região que o seu nome merece ficar gravado, de forma solene, no mapa urbano da Guarda e na memória dos guardenses.

* pedrorgfonseca@gmail.com

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Pedro Fonseca

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