Os últimos moicanos

Nós, a imprensa regional, somos os últimos moicanos, essenciais pra o desenvolvimento social e cultural de uma comunidade, para informar e esclarecer

Nos próximos dias 8 e 9 vai realizar-se em Coimbra o Dia Nacional da Imprensa. Será mais uma jornada de debate e análise sobre os jornais em Portugal e onde se pretenderá vislumbrar caminhos para um setor em dificuldades. A imprensa, e o seu presente e futuro, têm sido recorrentemente matéria discutida nas mais diferentes geografias e com os mais diversos argumentos, mas pouco tem mudado nos últimos anos em termos de efetivação de medidas em prol da viabilização do sector.

Nestes dias, mais uma vez, serão apresentadas propostas e sugestões para um novo modelo de negócio na imprensa. Do aumento do apoio à leitura (porte pago) à aquisição pelo Estado de jornais para toda a administração pública e em especial para as escolas e bibliotecas, contribuindo para o desenvolvimento da literacia juvenil, para a aquisição de melhores competências e para a educação cívica – é uma vergonha que muitas escolas ou bibliotecas nos solicitem a oferta de jornais (com os custos a ficarem todos do nosso lado, da impressão ao porte dos CTT), que haja autarquias que não nos comprem uma assinatura ou que a publicidade institucional seja inserida em revistas, “sites”, “páginas” e boletins municipais que custam milhares de euros e não são mais do que instrumentos de propaganda municipal, por vezes tão rasca que envergonha os cidadãos dos respetivo concelho.

Mas quando falamos de crise da imprensa, também poderíamos falar da crise em muitos outros sectores da sociedade. Inclusive poderíamos falar da crise da comunicação social no seu todo. A televisão generalista perdeu milhões de pessoas para os canais por cabo e agora sofre a concorrência fortíssima de plataformas na Internet ou da Netflix. A SIC recuperou a liderança com cerca de 20% de audiência, mas, em horário nobre, poucos são os dias que ultrapassa o milhão de espetadores e em horário normal a maioria dos programas têm uma audiência inferior a meio milhão de pessoas (sábado, dia 30 de novembro, o programa de maior audiência da televisão em Portugal foi “A Árvore dos Desejos” com uma audiência de 976 mil pessoas e um share de 22,8 e o décimo programa mais visto, “Ladrões com Muito Estilo”, ficou-se pelos 530 mil espetadores, os demais programas tiveram muito menos audiência), o ocaso da TVI, à espera das orientações dos novos proprietários, caiu para números abaixo dos 15% e a RTP, paga por todos, anda pelos 12%, ou seja, raro é o dia que tem uma audiência média em horário nobre acima dos 400 mil espetadores (salvo o noticiário da noite e mesmo que se inclua a TDT). A RTP2 tem em média 40 mil espectadores. Nos canais de cabo a CMTV, com perto de 5% de audiência, é um caso à parte, mas a RTP3 não tem mais de 0,5%, ou seja, os melhores programas da RTP3 são vistos por 20 mil pessoas, ou menos… E com um investimento público de milhões. A rádio vive a crise de ficar limitada aos podcasts e à audição no automóvel e, para além do domínio de duas grandes cadeias nacionais, resiste – a TSF atravessa dificuldades de sobrevivência.

As mudanças da sociedade de informação, a massificação da web.2.0 e posteriores desenvolvimentos com a web3.0 e web4.0 alteraram todas as noções clássicas de comunicação e imprimiram uma dinâmica de instantaneidade que a comunicação social dificilmente pode acompanhar. Muito mais do que as “fake news”, são as redes sociais que modelam os novos hábitos de comunicação. Os leitores veem os “feeds” e acham que estão informados, leem o Facebook e concluem que sabem tudo, abrem o Instagram e pensam que conhecem o mundo… Mas não! A Imprensa tem o seu lugar, como desde Gutenberg, o lugar do conhecimento. São os jornais que mais e melhor informam, no papel ou online. São os jornais que esclarecem, que ficam como repositório e memória da sociedade. E, mesmo sendo certo que pelo meio se perderam muitos leitores, os jornais continuam a ser os fiéis depositários dos que querem estar mais informados. A imprensa não aproveitou a massificação da alfabetização e pode não atrair novos leitores no mundo digital, mas, como sempre, as elites, os que querem saber mais, continuam a ler jornais.

Por isso nós, a imprensa, e em especial a imprensa regional, somos os últimos moicanos, resilientes e dedicados, essenciais pra o desenvolvimento social e cultural de uma comunidade, para informar e esclarecer. E quanto mais pobres forem os jornais, mais pobre será a democracia e mais pobre será o país.

PS: A edição em papel do Jornal O INTERIOR desta semana é distribuída com o semanário Expresso sábado, na Beira Interior, e tem uma tiragem de 7.800 exemplares; a edição online de ointerior.pt teve durante o mês de novembro 156.428 visitantes (Google.Analytics), ou seja, uma média diária superior a cinco mil leitores; os feed’s, post’s, tweets e partilhas nas redes sociais de O INTERIOR tiveram milhares de visualizações diárias…

Sobre o autor

Luís Baptista-Martins

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