Opinião de Fidélia Pissarra: Quando o sucesso escolar depende apenas da sala de aula

Escrito por Fidélia Pissarra

Sentada à mesa de um restaurante, observo descaradamente as mesas à minha volta, enquanto espero pelo jantar. Sozinha numa mesa, uma mulher mal penteada e pior vestida benzeu-se antes de começar a comer, fora isso, escrevia alternadamente em dois cadernos que presumi de viagem. Na mesa do lado, um boné e um saco a tiracolo disputavam o espaço com os pratos, o copo e os talheres. Na mesa à minha frente, duas meninas, a quem, pelo tamanho, acabei por atribuir 4 e 6 anos, estavam acompanhadas pelos pais e os avós maternos que, em uníssono, aplaudiam uma das suas chamadas de atenção como se se quisessem desculpar de qualquer coisinha de menos boa que lhes tivessem feito. Bem, pela qualidade e quantidade das ocorrências, talvez não fossem apenas coisinhas.
Enquanto não lhes serviram não sei quê, acompanhado das inevitáveis batatas fritas e respetivos refrigerantes, desde malabarismos nas cadeiras, às pulseiras de plástico a fazerem de monóculos, passando pelas alças das malas a pendurar as ditas nos pequenitos pescoços, para matar o tempo e recolher os estapafúrdios aplausos dos progenitores e dos progenitores dos mesmos, pareceu-me não haver excentricidade (dada a ocasião) que lhes tivesse escapado. Foi, por isso, com algum alívio que vi servirem-lhe a comida. Julguei eu que, a partir daí, poderia continuar o jantar mais sossegada, coisa que nem a auto-imposta concentração no meu próprio jantar me tinha ainda permitido. Mas depressa me desenganei. À minha frente, a avó, ladeada pelas netas que, desprezando o uso dos talheres, se deleitavam com a comida, do próprio prato e do dos restantes familiares, amassada entre as mãos como se fosse um bolinho dos que se faziam para dar às bonecas com a lama do quintal, depois de lamber garfo e faca, conseguia a proeza de mastigar e falar em simultâneo.
Se até aí a companhia que me tinha calhado em sorte naquele restaurante não me parecia lá grande coisa, como se pode imaginar, acabara de piorar significativamente. A antevisão de poder ser eu a sentir na pele o argumento, do filme de terror que esperava os futuros professores e companheiros daquelas duas crianças, acabara de piorar. Já não se tratava só de ter que aprender a gerir aquilo a que chamarei “falta de noção” das duas garotas e a disseminação da mesma pela sala de aula, ao longo do seu percurso escolar, haveria também que descobrir como lidar com a petulância e falta de limites dos tutores sem ninguém se “queimar”.
Enfim, todo um mar de possibilidades que, não parecendo, bem poderá corroer mais a confiança e boa vontade de qualquer professor, em início de ano letivo, do que a simples interpretação dos resultados do PISA a que, cada vez mais, cenas destas não serão completamente alheias. De qualquer forma, o fim da refeição acabaria por me recordar que talvez os professores acabem por não ter de continuar a preocupar-se assim tanto. Mesmo não sabendo como lidar com problemas destes, nunca se sabe se a maioria deles, num futuro próximo, não acabará por lhes ser retirado.

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Fidélia Pissarra

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