À hora a que escrevo, Portugal vive uma grande excitação com a antecipação de um eclipse solar. Pela quase histeria que se sente nas ruas, mais parece a vinda de um apocalipse do que um eclipse. Muito particularmente as estações de televisão parecerem estar a sofrer ataques eclipséticos.
Confesso ser um céptico do eclipse. O que vai acontecer é apenas um astro que desaparece momentaneamente, mas que depois reaparece com o seu brilho intacto. É uma espécie de John Travolta ou Robert Downey Jr. no firmamento. Mais nada.
Dirão os leitores mais entusiasmados que é um espectáculo único e que merece fazer vários quilómetros para a ele assistir. Pelo contrário, à hora do eclipse estarei a percorrer três mil e quinhentos quilómetros para me eclipsar do país em direcção a lugares onde o Sol de Verão, em vez de se esconder atrás da Lua, brilha no céu até mais tarde. Uma terra onde o Sol é feminina e a Lua é masculino.
Quando a Lua tapar o Sol será mais eficaz do que a proverbial peneira, que na sabedoria popular portuguesa não serve para tal efeito. A lição que daqui se extrai é simples: com peneiras nada se eclipsa.
O que distingue uma elipse de um eclipse? Obviamente, um “C”. E o género. Uma elipse é uma figura de estilo em que uma palavra desaparece atrás do contexto. É um eclipse vocabular.
Durante o eclipse, parece que desaparece. Depois volta. Como esta. Para a próxima.



