Editorial de Luís Baptista-Martins: Ceuta é nossa…

Ceuta voltou aos noticiários como fronteira vulnerável da Europa, pressionada pelas sucessivas crises migratórias e pelas tensões diplomáticas no Mediterrâneo. Contudo, por detrás das imagens de vedações e patrulhas, permanece um símbolo quase ignorado: a bandeira da cidade continua a ostentar o escudo português e as cores da antiga bandeira de Lisboa, memória silenciosa de uma história iniciada há mais de seis séculos.
Envolta desde a Antiguidade no imaginário das Colunas de Hércules, Ceuta tornou-se, em 1415, o primeiro grande marco da expansão portuguesa. A armada de D. João I, acompanhada pelos infantes D. Duarte, D. Pedro e D. Henrique, conquistou a cidade e abriu um ciclo que transformaria um pequeno reino atlântico numa potência marítima de dimensão universal. Antes da Índia, do Brasil ou do Oriente, foi em Ceuta que Portugal iniciou a sua vocação oceânica.
Essa conquista teve, porém, um custo elevado. Durante mais de dois séculos, a manutenção da praça exigiu homens, recursos e sacrifícios, encontrando no martírio do Infante D. Fernando um dos seus símbolos mais expressivos. Décadas depois, Camões celebraria a epopeia marítima em Os Lusíadas, mas o seu primeiro capítulo escrevera-se já nas muralhas daquela cidade africana.
A perda da independência em 1580 alterou o destino de Ceuta. Durante o período dos Filipes, Ceuta, à semelhança de Tânger e Mazagão, mantém-se sob administração portuguesa, mas após a restauração de 1640, não aclama o Duque de Bragança como rei de Portugal. A soberania espanhola sobre a cidade seria reconhecida em 1668 com a assinatura do Tratado de Lisboa. Mudou a soberania, mas não desapareceu a memória. O escudo português e o preto e branco de Lisboa continuaram inscritos na bandeira, testemunhando uma origem que o tempo não apagou. Visitar Ceuta, é recuar no tempo e sentir a presença de uma portugalidade quase sempre esquecida. As fortificações portuguesas e o escudo português representam muito mais do que a presença portuguesa, representam a dimensão universal da epopeia portuguesa dos Descobrimentos.
Num momento em que Ceuta é vista sobretudo como palco de desafios migratórios e geopolíticos, vale a pena recordar que a sua identidade não se esgota na atualidade. A sua bandeira permanece como um raro vestígio de continuidade histórica, recordando que foi ali que Portugal iniciou uma das mais decisivas aventuras da história europeia e da expansão marítima. Alguns símbolos sobrevivem às fronteiras, às dinastias e aos impérios; deixam de pertencer apenas aos Estados para integrarem, definitivamente, o património da História.
A pressão migratória em Ceuta dividiu a Europa e faz ruir a ideia virtuosa de solidariedade e humanismo porque uma união rica e envelhecida é incapaz de lidar com as “portas abertas” de Espanha. Ceuta é nossa. É europeia, em África. E foi nossa, portuguesa, porque Espanha não a devolveu em 1640. E é uma porta para fugir à fome. Ou o ocidente promove o desenvolvimento dos países mais pobres e define políticas de imigração e acolhimento, reguladas e integradoras, ou os movimentos migratórios serão cada vez mais intensos, massivos e difíceis de parar.

PS: A 1 de agosto de 2026 nasceu a Universidade Politécnica da Guarda. Como aqui escrevi https://www.ointerior.pt/opiniao/editorial-de-luis-baptista-martins-universidade-da-guarda/), este é um passo determinante para o futuro da Guarda e da região: Parabéns a Joaquim Brigas, primeiro Reitor da Universidade Politécnica da Guarda; Parabéns a todos os professores e investigadores que deram dimensão científica ao IPG; Parabéns a todos os trabalhadores da instituição; Parabéns à Guarda.

Sobre o autor

Luís Baptista-Martins

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