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Uma vez de cada dia

Extremo Acidental

Durante a semana passada vivi mais que tudo com três dúvidas: Deus será uma falácia ou anda distraído com o youtube?; haverá vida inteligente no Congresso do PSD?; a que horas servem o jantar?

Estas três questões sobre a verdade do Universo constituem o núcleo central da disciplina da filosofia designada por teodiceia. Começando pela última questão, um ramo do conhecimento que apresenta na sua raiz etimológica uma refeição normalmente efectuada a horas tardias, deve começar sempre por questionar por que razão a infinita bondade divina permite que alguns restaurantes neguem comida fora do horário, seja por excesso ou por defeito do relógio. A resposta clássica da filosofia é que Deus é todo-poderoso, mas o cozinheiro é ainda mais. Resolvida esta questão etimológica inicial – teo (Deus) + ceia – avancemos para a segunda.

Deus, diz o Cristianismo, é infinitamente bom e dotou o ser humano de inteligência e livre arbítrio. Durante o fim-de-semana, vendo e ouvindo o que se passava no Congresso do PSD, questionei várias vezes a doutrina. Com essa dúvida no espírito, procurei dar uma renovada atenção aos evangelhos contemporâneos do gnosticismo empresarial, onde se estipula que as empresas são dotadas de alma e os trabalhadores são os arcontes da economia ou, na melhor das hipóteses, apenas uma carneirada. Os congressistas do PSD são afinal os nossos aeons, emanações da divindade que dotam os seres humanos de espírito, por contraposição aos arcontes, criadores do corpo e da matéria. Obviamente, quando o primeiro-ministro nos acusa de viver acima das possibilidades, está simplesmente a usar um argumento gnóstico: as pessoas querem proteger o corpo (com comida, roupa e outras futilidades) quando deviam preocupar-se apenas com o espírito.

E Deus, afinal, o que tem a dizer sobre isto tudo? Se Deus é bom e está em todo o lado, neste momento está com certeza a ver boas séries – e os sketches da Porta do Fundos – num computador qualquer. E não poderá Deus ajudar o nosso país a sair da crise? Nietzsche explica. Deus pode ser omnipotente, mas há um dia em que se farta.

Por: Nuno Amaral Jerónimo

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