Escrevo esta semana em registo de protesto contra as declarações infelizes do ministro Mário Lino. Não tenho dúvidas da necessidade de fazer chegar ao governo as nossas vozes indignadas. Com certeza o leitor conhece bem o país, ou pelo menos já ouviu falar dele na televisão. Considero escandaloso que o ministro classifique a margem Sul do Tejo, nomeadamente a região de Setúbal, como um deserto e se esqueça de referir o Alentejo, a Beira Interior e Trás-os-Montes. Mais uma vez os poderes centrais ficam assoberbados com as questiúnculas localizadas na área da capital e esquecem-se do resto do país. O povo do Interior tem o dever de protestar. “O deserto somos nós, aqui é que há cactos” ou “Se o Poceirão é um deserto, a Malcata é a superfície lunar” são propostas para inscrever em cartazes que podemos empunhar enquanto protestamos organizadamente entre uma tempestade de areia e um encontro com os beduínos. Não podemos tolerar mais esta discriminação feita por um ministro que representa todo o país, não apenas os betinhos de Fernão Ferro, do Montijo ou do Seixal. Mário Lino tem de reconhecer que um deserto não se faz apenas da areia que ele encontra na praia.
A localização do novo aeroporto de Lisboa está também longe de ser um assunto satisfatório para as populações do Interior. A discussão entre a Ota e o Poceirão são uma vez mais um sinal de que o governo não tem em consideração as regiões interiores do continente português. Não ouvi ainda uma única proposta de construção do novo aeroporto de Lisboa nas planícies de Beja ou no planalto bragantino. E por que razão não de pode descentralizar os serviços? Devido à irregularidade do terreno, a Beira Interior talvez tivesse alguma dificuldade em receber as pistas de aterragem e as linhas do TGV, mas a altitude da Serra da Estrela permitiria a construção de uma torre de controlo com uma visibilidade sem par. O check-in podia fazer-se em Vila de Rei, terra já acostumada à chegada e partida de estrangeiros.
A desertificação do território pode, segundo alguns estudos, ser uma razão ainda mais forte para a construção de aeroportos. É sabido que uma das condições mais regulares das pistas de aterragem é o seu encerramento por causa de pluviosidade extrema – ou como se diz na gíria da aviação, por estar a chover como o caraças. Uma pista para aviões nas regiões que sofrem mais os efeitos da seca tornaria essas áreas autênticos leitos do Nilo, embora sem os crocodilos. Excepto aqueles nos pólos dos meninos betos da península de Setúbal que fossem lá apanhar o avião.
PS: Já passou uma semana e ainda não foi me instaurado nenhum processo disciplinar por causas das anedotas que aqui escrevi a passada semana. Se o Fernando Charrua soubesse, tinha dito aquelas piadas em declarações a O Interior.
Por: Nuno Amaral Jerónimo


