Um amigo pedira-me para convidar Carlos Adaixo a fim de este prestar um gracioso serviço à grei egitaniense.
Como um dos luxos que um professor de Liceu se pode permitir é organizar escrupulosamente o seu tempo, ficou decidido que a conversa se faria a 10 transacto enquanto viajássemos para a exposição que a ANIL (Associação Nacional de Industriais de Lanifícios) promovera no seu espaço no estrito fim-de-semana de 8, 9 e 10. O argumento de Adaixo fora forte: «Uma vez que gosta daquilo». Eu ia na expectativa, sem nada saber.
Mal entrado, no espaço – e um óptimo espaço: amplo, adequado, com muito desafogado pé direito, luz em condições, prestando-se a módulos diversos – mal entrado, dizia, como um brasão a postular uma intangível reverência, logo à direita estava a MTP, de que uma das peças era a partir de Cargaleiro.
Obrigatório explicar sumariamente o que é a Manufactura de Tapeçarias de Portalegre. A tradição de tapetes de parede é tão vigorosa em França que basta lembrar que a manufactura dos Gobelins foi fundada já no século XV; e que – se não agora mesmo no momento em que escrevo, pelo menos há escassos anos – os franceses consideravam Aubusson a capital mundial da tapeçaria. (Caso o leitor, um dia, viaje de Limoges para a Alemanha ou Suíça, Friburgo da Brisgóvia ou Basileia e Genebra, respectivamente, pode passar por lá).
Foi por causa da MTP que já visitei duas ou três vezes Aubusson – e em todas elas notei que trabalha muito caro.
A tradição dos tapetes de parede conferiu à França artistas e artesãos de consabida qualidade – e os franceses hiper-valorizam-se a si próprios de tal modo que não é preciso insistir nesse ponto… Mas o preço é um óbice de grande monta.
Um dos grandes artistas tapeceiros na década de 60 era Jean Lurçat; e foi-lhe então indicado que o preço se contornava em Portalegre – o que o francês fez. Lurçat recebeu, primeiro, a influência de Cézanne e do Cubismo (1920-23), mas, depois pintou paisagens surrealistas, consequência de uma viagem por Espanha, o Saara, a Grécia e a Ásia Menor. Na renovação da tapeçaria contemporânea francesa desempenhou um notável papel e o expressionismo surrealista é prática que plasma para os tapetes.
Trabalho feito na MTP, quando lhe devolvem o seu original ao lado do acabado na cidade de Régio, toma este por aquele. Ficou tão rendido que, depois, sempre foi claro: «Os melhores tapeceiros do Mundo são os de Portalegre».
Como a nobreza não deixa os seus créditos por mãos alheias, a MTP estava representada por essa sua alma cimeira, essa senhora tocante de beleza e de feminilidade que é D. Fernanda Fortunato – a quem, aliás, prometi ir ver à sua cidade, tão diuturna é a minha gratidão para com ela. Foi também uma grande satisfação tê-la apresentado a Adaixo – e que também este possa, um dia, ser reproduzido em Portalegre.
Estava, portanto, dado o tom. Se a ANIL se relaciona a tão supremo nível só me (nos) resta uma admiração de louvor, não, desde já, admiração pelo que faltava ver. O tom, muito finamente (Fino, ainda por cima, é o nome do Senhor que fundou a MTP), repito, estava dado.
Enquanto no Acontece da RTP2, Carlos Pinto Coelho de tal modo descobriu Portugal que, desde então, passou a insurgir-se, sempre veementemente, quando lhe depreciavam Portugal. As palavras do apresentador televisivo acompanharam-me insistentemente ao longo da visita.
Quantidade de vezes por ano visito alguns dos melhores museus do mundo e espaços similares (lembro, tão-só, Linderhof, a Alte Pinakothek, em Munique, e a casa natal de Dürer em Nuremberga, em Agosto último). É preciso declarar, alto e bom som, que, no pavilhão da ANIL, encontrei obras muito para além de outras que se contemplam em lugares cosmopolitas de muito alta cotação. Também lá estava o feio e o repugnante, o totalmente destituído de categoria e o horroroso obsceno. Mas nem a ANIL pretende ser excluente, nem há que ignorar que o obsceno pode ser arte. Aliás, relativamente a este último tópico baste lembrar, v.g., a explicitude sexual de obras do austríaco Egon Schiele.
Mais. Fazer convergir para tal espaço, apenas durante três dias, galerias de Castelo Branco, Guarda e Viseu (ordem alfabética) e autores obviamente meritórios mas, de facto, desconhecidos é exaltante. E exaltante é que as referidas galerias trabalhem com autores, que, nalguns casos, apresentam produção de notável nível.
Não me foi possível fixar o nome de todos – e que me perdoem os que se sentirem injustiçados. Mas, por uma ou outra razão, a menção de Fausto Grilo e Rita Aragão (ordem alfabética) é obrigatória – mesmo que muito diferentes um do outro.
Mais ainda. Muitas das obras apresentadas eram manifestamente baratas. Deu-me tristeza. A despeito da arenga dos políticos aí está um insofismável – e insuperável – indicador de como no fundo da Economia estão a auto-estima, a funda consciência de si e a ambição de todo um povo. Os que, do 25 de Abril para cá, têm estado à frente de Portugal merecem – salvo excepções – reservas e repúdio. No fundo, a Economia é Ética, Moral e ambiciosa Relacionalidade. Onde estão estas? A quem dão os portugueses os seus votos? Ou será que os cidadãos não sabem o que lhes convém?
Ao menos há organismos como a ANIL. Bem haja. Curvamo-nos perante a sua categoria. Quanto à Covilhã, cada vez mais hodierna, bonita, urbana, e virada para o Futuro, está também de parabéns.
Guarda, 17-XII-06
Por: J. A. Alves Ambrósio


