Milton Humason! Já alguma vez ouviu falar deste astrónomo? Não! Deixe-me contar-lhe um pouco da sua história. Conta a lenda que este astrónomo descobriu a sua vocação quando se apaixonou pela filha de um engenheiro do observatório que estava a construir.
No princípio do século XX, a cidade de Los Angeles, nos Estados Unidos, era um lugar de céus cristalinos. Nessa altura teve início a construção, no Monte Wilson, de um observatório que viria ser recordado na história porque nesse local Edwin Hubble descobriria uma das provas nas quais assenta o conhecimento atual do Universo: o afastamento das galáxias. O trabalho era árduo. Havia de levar até ao cimo do monte todos os materiais, além de pesados artefactos. Parte da construção incluía acarretar as delicadas peças do telescópio Hooker, assim chamado em honra do magnata norte-americano que a pedido do filho doou o dinheiro para a sua construção. Eram necessários muitos trabalhadores para levar a cabo esta missão. Um deles era mais empreendedor que os restantes.
Milton Humason, apesar da sua pouca instrução, começou a interessar-se por todos os instrumentos que ajudava a transportar. Era um jovem com escolaridade básica mas curioso e bastante inteligente. Conta-se que era fanático por jogar às cartas e estava disposto a executar qualquer tipo de trabalho. Conheceu a filha de um dos engenheiros com quem viria a casar e decidiu ficar no observatório de forma permanente. Uma vez construído o observatório ficou para desempenhar diversos trabalhos de eletricidade. E, a pouco e pouco, foi exercendo cada vez mais tarefas, até que um dia teve a oportunidade de substituir o ajudante do telescópio. O seu espírito curioso e a sua extraordinária capacidade levaram-no a tornar-se ajudante de Hubble, que ficou impressionado com a capacidade de Humason, considerando-o um seu par. Juntos mediram o espetro das galáxias distantes, e com o tempo, especializou-se em espectroscopia, além de realizar um sem-número de trabalhos científicos sobre o tema. Descobriu o cometa Humason e uma cratera na Lua, que foi batizada com o seu nome. Recebeu o título doutor Honoris Causa da Universidade de Lund (Suécia) e foi considerado membro da comunidade astronómica norte-americana. Aquando da sua morte já tinha publicado mais de uma centena de artigos sobre astronomia e astrofísica.
Esta história faz-me recordar um conceito muitas vezes aplicado na ciência –serendipidade. Este conceito teve a sua origem na forma inglesa de “serendipity” e foi criado, em 1754, pelo escritor Horace Walpole tendo por base um conto persa infantil “Os três príncipes de Serendip”. Na história de Walpole os três príncipes estavam constantemente a realizar inesperadas descobertas, como resultado da capacidade de observação e da sagacidade. Atualmente, este conceito é visto como uma forma especial de criatividade, ou uma das muitas técnicas de desenvolvimento do potencial criativo de uma pessoa adulta, que associa a perseverança à inteligência e ao senso de observação. Foram precisamente estas características que permitiram que Humason atingesse um patamar elevado no seio da comunidade científica.
Por: António Costa


