Será que os robôs têm sonhos eléctricos?

Escrito por Sofia Pereira

A história da inteligência artificial cruzou-se com o jogo do xadrez durante muitos anos. Foi (também) através da capacidade dos computadores jogarem xadrez que se avaliaram os progressos nessa área. A transposição do tabuleiro para os microships de conceitos como estratégia e táctica, com planeamento à distância e resolução de problemas permitia alcançar um simulacro de pensamento, transponível para outros domínios.

Inicialmente, não se acreditava que fosse possível colocar um computador a jogar decentemente e David Levy, um mestre internacional escocês, chegou a apostar, em 1968, que nenhum computador seria capaz de lhe ganhar uma partida durante os dez anos seguintes, aposta que ganhou. Reiterou a aposta anos mais tarde, colocando agora em jogo cinco mil dólares, mas foi derrotado em 1989 pelo programa Deep Thought.

Entretanto, nos anos 80, em Coimbra, tive uma série de discussões sobre o assunto. Eu achava também que seria impossível um programa de computador conseguir bater um mestre de xadrez e eu próprio ganhava com facilidade aos programas comercializados na altura. O computador, pensava eu, não aprendia com os próprios erros e tinha uma limitação grave. De acordo com o chamado “efeito de horizonte”, a complexidade do jogo, mesmo em posições simples, era tanta que o computador não conseguia analisar todas as jogadas possíveis – o horizonte era sempre inatingível.

Em Janeiro de 1989 estive em Quebec City, na equipa de Kevin Spraggett, que iria jogar os quartos de final do campeonato do mundo contra o russo Artur Yusupov. No meu quarto tinha um computador, ligado à universidade de Edmonton e ao computador onde corria o Deep Thought. As minhas ilusões do passado foram rapidamente quebradas: o programa aprendia com os próprios erros, embora de uma forma ainda primitiva. Avaliava a posição depois de cada lance e, quando a avaliação começava a diminuir, concluía que tinha cometido um erro e não voltaria a cometê-lo. Estávamos ainda muito longe do que se chama agora “auto-aperfeiçoamento recursivo”, mas era o primeiro passo e, se pensarmos que a capacidade de computação era agora muito superior, era evidente que seria uma questão de tempo até os seres humanos serem ultrapassados nesse campo.

O Deep Thought não foi de grande ajuda, mas ainda refutou uma linha secundária que o Kevin considerava poder vir a jogar, levando-o a mudar de estratégia. Algum tempo depois, houve um badalado match entre esse programa e o então campeão do mundo, Garry Kasparov. A evolução tinha, entretanto, sido gigantesca – e Kasparov perdeu. Longe ia já o tempo em que até eu ganhava, mesmo que apenas uma partida, ao Deep Thought.

Muitos anos depois, a Google produziu um programa de xadrez, Alpha Zero, e instalou-o num super-computador. O programa, sem acesso a uma linha sequer da enorme massa de teoria e experiência acumuladas em séculos de estudo e competição pelos seres humanos, aprendeu e refinou os fundamentos técnicos do xadrez jogando consigo próprio milhões de vezes no espaço de algumas horas. De seguida, em 2017, defrontou numa série de partidas o programa comercial Stockfish e derrotou-o com facilidade. Num total de cem partidas, ganhou 28 e empatou as restantes. Até aqui nada de anormal, a não ser o seguinte: os melhores jogadores do mundo não conseguiam compreender o que se estava a passar durante boa parte de cada um desses jogos. Muitos dos lances eram incompreensíveis e a estratégia também. Por outras palavras, um mestre nada aprenderia a reproduzir essas partidas.

Dizia Paul Morphy que jogar xadrez era próprio de um cavalheiro, mas jogar bem era típico de quem tinha desperdiçado a sua vida. Essa piada tem um fundo que merece reflexão: a profundidade e complexidade do jogo é apenas dominável, se é que isso é possível, por quem lhe dedica muito tempo e esforço. Se os computadores conseguiram atingir aí a supremacia, o que não lhes será alcançável em todos os outros domínios do conhecimento?

 

*António Ferreira

*O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

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Sofia Pereira

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