Revisitar a história de algumas das instituições que marcaram a Guarda é uma oportunidade de reencontro com personalidades cuja vida e trabalho se traduziu em prol das pessoas, da cidade, da comunidade e da região; personalidades tantas vezes injustamente esquecidas.
Neste dever da memória, trazemos hoje a estas anotações o nome do último diretor do Sanatório Sousa Martins, onde deixou a sua impressão digital e foi, igualmente, o dinamizador de uma marca radiofónica que ainda hoje perdura.
Manuel Martins Queiroz nasceu na freguesia de Fragoso, concelho de Barcelos, a 13 de setembro de 1904. Na Faculdade de Medicina de Lisboa licenciou-se, em 1933, em medicina e cirurgia; exerceu a atividade médica nos Hospitais Civis de Lisboa e, a partir de 1945, passou a exercer as funções de Diretor do Departamento Cirúrgico do Sanatório do Caramulo. Este consagrado clínico trabalhou ainda no Hospital de Tondela (no serviço de cirurgia) e na Guarda, para onde veio em 1954, dirigiu o Sanatório Sousa Martins; teve também a seu cargo o Serviço de Cirurgia Mulheres do Hospital da Misericórdia.
Na unidade de saúde guardense desenvolveu uma relevante ação, quer em termos de atividade médica, quer ao nível da implementação e estruturação de novos serviços, bem como na área de terapia ocupacional, onde emergiu o contributo do Centro Educacional e Recuperador dos Internados no Sanatório Sousa Martins (CERISSM), no âmbito do qual teve desenvolvimento o jornal “Bola de Neve” e a Rádio Altitude. A atividade daquele Centro serviu de base à comunicação “Recuperação do Tuberculoso a trabalhar durante o internamento” que apresentou no decorrer do Congresso Internacional Contra a Tuberculose realizado, na cidade de Roma, em setembro de 1963. O nome de Martins de Queiroz está ligado à criação de um aparelho para intervenção em situações de pneumotórax e a uma nova técnica osteoplástica utilizada à época. Este médico foi membro da Sociedade Internacional de Cirurgia do American College of The Chest Physicians e da American Trudeau Society.
Idealizou, para a Guarda, a Cidade Saúde; um plano com o objetivo de instalar na cerca do Sanatório todos os serviços de saúde disperso pela malha urbana citadina. Martins de Queirós por diversas vezes – nomeadamente na imprensa local – apresentou a sua ideia sobre o Parque da Saúde da Guarda; as conjunturas não foram, infelizmente, favoráveis à certificação da validade e oportunidade dos seus projetos. No jornal “Notícias da Guarda”, edição de 1 de janeiro de 1987, escrevia que «a tal Cidade Saúde, a tal Policlínica, o tal Centro de Saúde Modelo foi sonho mal sonhado (…). Já em 72 esta clara solução é posta diante dos olhos das autoridades locais e governamentais (…)».
A sua paixão pela Medicina e a sua dedicação ao doente não impediram que ele tivesse outra grande atração arrebatadora: a Rádio, certamente enraizada no contacto com a Rádio Pólo Norte, que já emitia no Caramulo desde 13 de maio de 1939. Na Guarda deu novas asas à Rádio nascida – nos finais da década de 40 – no Sanatório desta cidade, materializando os seus conhecimentos na área da radiofusão sonora e batendo-se, sempre que necessário, pela prossecução e engrandecimento da emissora. Numa publicação intitulada “Rádio Altitude – ao serviço do regionalismo das Beiras”, e num contexto onde se desenhava o desaparecimento dessa estação emissora, Martins de Queirós sublinhava que a «a força da sua razão de ser assenta nestes dois pilares: regionalismo acérrimo, finalidade eminentemente social»; acrescentava que, «apesar desta razão de ser, R.A. está na contingência de desaparecer, não por debilidade própria, mas em obediência a conceitos que não consideram nem o regionalismo, nem o social e nem sequer assenta em realidades nacionais que nos parecem evidentes».
Na defesa do regionalismo através das ondas hertzianas, insurgia-se contra o pensamento de que «as emissoras potentes, de larga cobertura, dispensarão estas de pequena potência», argumentando que «umas e outras são precisas».
Nessa linha de pensamento, após outros expressivos argumentos que pretendiam travar um desenlace fatal para a RA, sublinhava o papel da atividade radiofónica na representação da vida regional através de um trabalho onde se «exprimam, resumem e exaltem o espírito, os valores e a têmpera das gentes e das coisas da região». Após um período de afastamento, a partir de 1974, voltaria anos depois a dar alguma colaboração pontual; na década de 90 e perante uma falha na emissão de onda média não negou o seu saber e intervenção. Recordo as suas longas horas de trabalho pela noite dentro (juntamente com o Carlos Martins) na procura da identificação do problema (que se viria a descobrir ter sido um ato de vandalismo no cabo que ligava o emissor à antena). Conhecia, aliás, como ninguém esse emissor de onda média…
Martins de Queiroz faleceu no dia 23 de maio de 2009, data em que nos deixou também outra destacada personalidade guardense: João Gomes; ainda que diferenciados na sua postura, atividade profissional e ideologia, souberam servir e dignificar a Guarda, tendo deixado impressivos traços da sua intervenção social.
Do quarto e último diretor do Sanatório Sousa Martins, ficaram fortes marcas da sua ação naquela conhecida (nacional e internacionalmente) estância de saúde, cujo 120º aniversário da inauguração ocorrerá no próximo ano; materializou a solidariedade com os doentes de fracos recursos económicos, através da afirmação do CERISSM; associação que estabeleceu a ponte com a comunidade envolvente e outrossim com múltiplos percursos profissionais, dos quais, aliás, a própria cidade beneficiou.
A sua maior herança foi, talvez, a estação de radiodifusão sonora que, a partir de 1954, ajudou a robustecer e a projetar de forma inequívoca, na região e no país. Na Guarda da memória, há nomes que não devemos esquecer, contextualizando a sua ação na época e conhecendo melhor o seu percurso pessoal e profissional.


