Há cidades que se constroem depressa e há cidades que, por força da geografia, da história ou da incúria dos homens, parecem condenadas a construir-se lentamente. A Guarda conhece bem esta segunda condição. Talvez por isso algumas das suas obras mais importantes tenham adquirido, com o tempo, uma dimensão que ultrapassa o betão, o asfalto ou o desenho dos projetos. Tornaram-se promessas coletivas. A Alameda dos F’s – também designada por “Ti Jaquina” – é uma delas.
Poucas obras terão sido tão longamente esperadas pelos guardenses. Durante mais de trinta anos, esta ligação foi sucessivamente anunciada, adiada, discutida, redesenhada e, em diferentes momentos, travada por aquilo que tantas vezes paralisa a administração pública: a indecisão, a escassez financeira, a divergência política, a falta de consenso e, não menos importante, a ausência de um projeto capaz de transformar uma intenção numa obra.
A política, quando se deixa aprisionar pelo imediatismo, tende a confundir a cidade com o calendário eleitoral. Mas as cidades não vivem de mandatos. Vivem de décadas. E uma infraestrutura desta natureza deveria ter sido, desde o primeiro momento, matéria de estratégia e não de circunstância.
Por isso, a consignação da Alameda, na Quinta do Cabroeiro, deve ser recebida com satisfação, mas também com uma certa sobriedade. Não há aqui vencedores absolutos nem vencidos definitivos. Há, sobretudo, uma cidade que finalmente parece ultrapassar uma das suas mais persistentes procrastinações.
E aquilo que se vai construir não é apenas uma estrada.
A Alameda será uma nova espinha dorsal da mobilidade urbana, aproximando o centro da VICEG, do parque industrial e dos principais eixos de acesso, incluindo a A23. Tornará mais rápida e cómoda a deslocação para os bairros de Nossa Senhora dos Remédios, da Luz, do Pinheiro ou da Póvoa do Mileu e, sobretudo, reduzirá uma espécie de distância que não se mede apenas em quilómetros: a distância entre diferentes partes da própria Guarda.
Mas é precisamente aqui que começa a verdadeira discussão.
Porque uma estrada pode transportar trânsito, mas uma alameda deve transportar uma ideia de cidade.
A obra abre uma nova possibilidade de expansão urbana e poderá alterar profundamente a relação da Guarda com aquele território. Onde hoje existe uma fronteira, poderá nascer continuidade; onde existe periferia, poderá surgir centralidade; onde há terrenos expectantes, poderá desenvolver-se habitação, comércio, serviços e novas atividades económicas.
Será, portanto, um erro pensar a Alameda apenas como uma solução para o trânsito. O seu verdadeiro alcance estará na capacidade de induzir uma nova dinâmica urbana.
Daqui a três anos, quando a obra estiver concluída, será inevitável perguntar não apenas se a estrada funciona, mas que cidade nasceu à sua volta.
Depois de três décadas em que a Alameda foi sobretudo uma promessa, chegou finalmente o tempo em que terá de ser uma visão. A Guarda não precisa apenas de novas vias para se circular melhor. Precisa de novas razões para crescer, investir, fixar pessoas e acreditar no seu próprio futuro.
Talvez seja essa a maior ironia desta longa espera: aquilo que durante tantos anos pareceu apenas uma estrada por fazer pode acabar por ser uma das obras que mais contribuirá para redesenhar a Guarda.
A Alameda dos F’s chega tarde. Muito tarde. Tão tarde que alguns até consideram que já não será necessária…
Mas, se soubermos aproveitar a oportunidade, poderá chegar a tempo de uma coisa essencial: a Guarda do futuro.


