“Se nunca dás pela minha presença, não significa que não tenha importância, mas revela a vaidade que tens”, disse-me no fim do trabalho.
Uma instituição desarrumada, suja, sem os ferrolhos no lugar, sem as lâmpadas substituídas, sem a manutenção garantida é uma desordem.
As pessoas que assinam as folhas das casas de banho, as que garantem que tudo está nas gavetas, ou seja, a reposição de stocks, a higiene, a segurança, podem parecer invisíveis, mas não são insignificantes. São como todas as outras mães, perorando pelos filhos, garantindo a ascensão social deles, lutando pelas melhores relações que lhes calhem. O sacrifício destas formigas de baixos salários é hercúleo porque querem garantir que conseguem. Nas instituições também há os predadores dos invisíveis, os abusadores dos mais pequenos, os déspotas da hierarquia organizacional. O senso, a importância do bem-estar alheio não se aprende na escola, não se transmite na genética, mas vem do berço. A importância dos outros é uma forma educativa. Eles existem e devem garantir que o trabalho está para funcionar em condições.
Não é verdade que os pequeninos são os bons, não é verdade que são os sofridos, os que a vida amargou. Há lá de tudo, como entre os grandes. Há gente má, preguiçosa, viciosa, cumpridora e outra não. O espaço da invisibilidade é como o lugar das estrelas. São vidas humanas e essas são sempre complexas. O que torna a sua existência importante é a impossibilidade da sua ausência, e o que a faz invisível é que existem debaixo do palco, pertencem à cadeia de transporte, à logística, cumprem a rotina, e formam os carreiros. Os outros, o estrelato, não se apercebe que a garrafa tem água que não nasceu lá dentro, que o pão está no supermercado porque alguém o cozeu, que os caixotes não se despejam sozinhos.



