Opinião de João Coelho: O que é, afinal, um banco?

Escrito por João Coelho

Em poucos meses, dois bancos estrangeiros trataram de parecer portugueses. A Revolut deu aos clientes um IBAN nacional; há duas semanas, a Trade Republic fez o mesmo, com juros de 3% e o anúncio de que quer ser, dentro de cinco anos, o banco número um dos portugueses. Entretanto, Bruxelas prepara-se para aliviar as regras de capital da banca de sempre, que se diz em desvantagem perante estes recém-chegados. Antes de lhe darmos razão, convém olhar para eles.

Na passada quarta-feira, uma venda de ações entre investidores privados avaliou a Revolut em cento e quinze mil milhões de dólares, mais de cinquenta por cento acima do que valia em novembro. Não é uma cotação de bolsa como a do BCP, mas dá a medida: vale mais de seis vezes o maior banco português e passou já o Barclays e o Deutsche Bank. O que prende a atenção está por baixo desse valor. Todo o crédito que a Revolut tinha dado ao mundo rondava os dois mil milhões de libras. Só o do BCP, quase todo em Portugal, passava dos sessenta mil milhões de euros. Vale mais quem empresta menos.

A razão está no modo como cada um ganha a vida. Na Revolut, três quartos da receita vêm de comissões, sobre cartões, câmbios e subscrições, e só um quinto de juros. Quem vive de comissões não precisa de pôr capital de lado para os empréstimos que possam correr mal, porque quase não empresta; cresce à velocidade do software e o mercado avalia-a como avalia uma empresa tecnológica. Um banco faz o inverso, e é aí que mora o peso do ofício: para lucrar mais tem de emprestar mais, e cada empréstimo prende capital e traz o risco de não voltar. Emprestar a prazo longo, preso a um sítio, foi o que durante séculos deu sentido à palavra.

A segunda diferença é menos visível, e está em quem cada um serve. Estes operadores já ganharam o país onde lhes convém: a Revolut passa dos dois milhões e trezentos mil clientes, quase um em cada quatro adultos em idade ativa; a Trade Republic duplicou para duzentos mil num só ano. Ficam com o cliente que rende, jovem, urbano, a mexer dinheiro pelo telemóvel. E não querem mais do que isso: a própria Trade Republic diz sem rodeios que não pensa entrar no crédito, e que o seu maior rival é o dinheiro parado nas contas à ordem. Ao banco de sempre sobra o resto, o cliente que dá trabalho e paga pouco, a agência da vila com meia dúzia de contas, a pessoa que ainda precisa de alguém do outro lado do balcão. Muito do que hoje pesa no balanço de um banco, e que os acionistas de bom grado punham na rua, é serviço público a que a lei obriga sem lhe chamar isso: servir toda a gente, em todo o lado.

Que muito disto é progresso, ninguém o nega. As filas e o balcão fechado às três da tarde não deixam saudades a ninguém. Falta perguntar quem paga a conveniência dos outros. A rede de agências caiu quase para metade desde 2010, e recuou sobretudo onde há menos gente e mais idade. No final de 2025, segundo o Banco de Portugal, quatro em cada dez freguesias não tinham um único ponto para levantar dinheiro, obrigando setecentas mil pessoas a sair da terra para lá chegar. Nos distritos de Bragança e Vila Real isto apanha mais de quarenta por cento da população, e na freguesia mais isolada, no concelho de Vinhais, o multibanco mais perto fica a mais de trinta quilómetros. Para quem tem oitenta anos numa aldeia da Beira, é uma viagem de cada vez que precisa da reforma. Não é gente que recuse aprender; é gente que ninguém achou que valesse a pena manter.

Não foram as regras de capital que fecharam estas agências, e seria desonesto dizê-lo: fecharam-nas os custos, a crise da década passada, o telemóvel. Mas o alívio que Bruxelas agora prepara vai no mesmo sentido que já esvaziou o interior por si só: livrar o banco de tudo o que custa e rende pouco. A diferença é que, desta vez, será por decisão tomada de propósito, e vendida como competitividade.

E a pergunta do título acaba por responder-se sozinha. A Revolut faz o que promete, e o que promete não é ser um banco. O que fica por decidir é se ainda queremos aquilo de que ela se dispensa: o crédito ao negócio da terra, a porta aberta onde as contas mandavam fechá-la há muito. Se a resposta for sim, fica a ironia de estarmos a tratar de preparar o contrário.

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