Todos os verões repetem a mesma tragédia, mas cada verão acrescenta um novo capítulo a uma história que já não pode ser lida apenas como fatalidade. O horizonte cobre-se de fumo, não apenas dos incêndios que lavram em território português, mas também daquele que o vento transporta dos gigantescos fogos que assolam Espanha, recordando-nos que o fogo desconhece fronteiras políticas e que a atmosfera é um património comum.
Vivemos dias em que o céu se veste de cinzento e o sol adquire a cor baça das grandes catástrofes. Os fogos nos últimos dias, nos concelhos de Almeida, do Sabugal ou da Guarda (o grande fogo do Rochoso) mostram o quanto somos incapazes perante a força bruta das chamas. O fumo que chega de Madrid, de Ávila e de outras regiões espanholas é uma evidência física de uma realidade maior: as alterações climáticas transformaram o sul da Europa numa das regiões mais vulneráveis do planeta. O calor extremo, as secas prolongadas, a vegetação ressequida e os ventos erráticos criam um cenário onde basta uma pequena ignição para desencadear um desastre de proporções gigantescas.
Seria cómodo encontrar explicações simples para fenómenos complexos. Durante décadas enraizou-se entre nós o hábito quase automático de atribuir cada incêndio à mão criminosa de um incendiário – os “madeireiros” ou outros tarados que nos infernizam a vida. A narrativa é sedutora porque oferece um culpado imediato e satisfaz a necessidade humana de personalizar a tragédia. Contudo, a realidade revela-se muito mais exigente. As investigações mostram repetidamente que uma parte significativa dos incêndios resulta de acidentes, negligências, falhas em equipamentos elétricos, trabalhos agrícolas ou florestais mal-executados, queimadas descontroladas ou simples descuidos que, em condições meteorológicas extremas, se convertem em infernos incontroláveis.
Perante este cenário, emerge também uma das faces mais nobres da Europa. Enquanto o fogo ignora fronteiras, a solidariedade europeia também as ultrapassa. Portugal envia bombeiros para Espanha quando Madrid, Ávila ou outras províncias enfrentam situações críticas. Espanha faz o mesmo quando Portugal necessita. França, Itália, Grécia, Alemanha e tantos outros países disponibilizam meios aéreos, equipas especializadas e recursos através do Mecanismo Europeu de Proteção Civil. Esta cooperação demonstra que a verdadeira ideia europeia não se esgota nos tratados, nas moedas ou nas instituições. Constrói-se igualmente no terreno, onde homens e mulheres combatem lado a lado um inimigo comum.
Importa, por isso, abandonar os discursos fáceis. O combate aos incêndios não se vence apenas durante o verão, nem apenas com o heroísmo dos bombeiros — por mais extraordinário que ele seja. Vence-se durante todo o ano, através da gestão florestal, do ordenamento do território, da limpeza dos combustíveis, da educação para o risco, da ciência aplicada e da adaptação às novas condições climáticas. Sobretudo, vence-se com uma cidadania responsável que compreenda que um simples gesto negligente pode desencadear consequências devastadoras.
As alterações climáticas deixaram de ser uma previsão distante para se tornarem uma evidência quotidiana. O calor excecional que sufoca praticamente toda a Europa não constitui uma anomalia passageira, mas um sinal de um clima em transformação. Ignorar esta realidade seria tão irresponsável como acreditar que basta prender alguns incendiários para resolver um problema cuja dimensão é estrutural.


