A não ser nos anos imediatamente a seguir à Revolução, não tenho memória de um fim de ano letivo tão atípico como aquele a que se assiste. Notas que não saem e notas que saem mancas, manetas e com outras estropiações que, além de ao “inovador” ministro, parecem não trazer descanso a quem quer que seja. Desde logo, pela incerteza quanto à exatidão aos resultados apresentados. Depois, no que à sua temporalidade concerne.
Atrasados e imperfeitos, os resultados académicos deste ano deixam alunos, famílias e sociedade em suspenso e incrédulos quanto à eficácia deste “inovador” processo de classificação. De toda esta salganhada, sobressai um ministro da educação, inicialmente apresentado como a última bolacha do pacote dos ministros excecionais, que considera que alguns funcionários da administração pública, sendo eleitos, respondem diretamente perante ele. Aqui há tempos foi o reitor da Universidade do Porto, agora são os diretores da escola. O que, por parte de um professor do ensino superior que já ocupou vários cargos de relevância na academia, incluindo o de pró-reitor da Universidade do Minho, nem sequer poderá ser considerado ignorância. Ora, assentando nós em que o ministro não é ignorante, teremos de assentar em que estará a ser outra coisa. Podendo, mesmo, ser uma muito pouco digna de um ministro da nação. Já que, ao invocar a condição de nomeados dos diretores para os pressionar a manter abertas as escolas durante a noite e o fim-de-semana, num acontecimento inaudito, e, em nome de um suposto bem maior, acalmar a ânsia dos alunos e a defesa da sua alegada “inovação”, irem afixando pautas noite adentro, mais não quereria do que salvar a própria face ao ter, politicamente, decidido avançar com um processo “inovador” mal desenhado e, pelo andar da carruagem, pior operacionalizado.
Tudo isto, não sem antes ter montado a inevitável cadeia de sacode-a-água-do-capote e, numa combinação (im)perfeita de arrogância com incompetência, ter acabado na indecência de atribuir o desastre a que se assiste a supostas resistências à “inovação” (vulgo digitalização) por parte dos professores. O ministro terá, assim, pecado duas vezes: uma pelos tiques autoritários e a outra pela conjugação de incompetência e soberba. O que, para alguém que pertence a um governo que, enquanto oposição, tanto se manifestava em desfavor da digitalização, da avaliação e da educação em geral, nomeadamente por falta de condições, também não será de admirar. Tal como também não será de admirar que tanta “inovação”, tenha acabado nesta excentricidade de ter que digitalizar (fotografar) o que os alunos fizeram em papel para poder dizer que se estava a avançar na digitalização necessária e contemplada em sede de PRR.
Imaginem lá, agora, o que não se diria de um professor que se atrevesse a pedir aos alunos que redigissem um texto ou resolvessem um exercício numa folha de papel, pedisse à reprografia da escola que o digitalizasse, para o corrigir por partes, e saísse por aí a apregoar aos quatro ventos que era um professor muito “inovador”. Aliás, já que estamos numa de imaginação, também podemos tentar prever o que não diriam de um diretor que se atrevesse a chamar de volta à escola professores que saíram meia hora antes e já tivessem percorrido 40 ou 50 Km de distância só para que lhes salvarem a face.


