Já escrevi algumas vezes neste jornal sobre a anestesiante passividade que nos assolou durante anos, que quase nos desidentificou pelo esquecimento da nossa condição de cidadãos com direito a exigir. Virámos o século nesta dormência, que foi uma das motivações para o nascimento, em janeiro de 2000, do jornal “O INTERIOR”: QUERER OUVIR OUTRAS VOZES, PROMOVER NOVAS AMBIÇÕES. Nesse mesmo ano noticia a APRESENTAÇÃO DO PROGRAMA POLIS GUARDA.
Cinco anos depois do seu nascimento “O Interior”’ dá voz a um movimento de cidadãos, acompanhando de perto o processo de insurreição popular contra a tentativa de encerramento da maternidade do hospital da Guarda por parte da administração central, que acabaria por recuar e ainda hoje permanece aberta – APOIAR E ESTIMULAR A CIDADANIA LOCAL. Nesse mesmo ano noticia a INAUGURAÇÃO DO TMG.
Dez anos depois do seu nascimento, as páginas d’O Interior, olhando as causa e as consequências, mostram uma Guarda que acentua o seu declínio com o encerramento da Delphi e o abandono e venda, pela administração local, do Hotel Turismo (ainda devoluto atualmente) – ALERTAR, COM CRUEZA, PARA A FRAGILIDADE DA ESTRUTURA ECONÓMICA E ADMINISTRATIVA LOCAL.
Num contexto político desgastado e sem energia, este jornal fez muitas vezes a diferença, questionou no momento certo, apelou à cultura e ao desenvolvimento intelectual, iniciou discussões, reuniu interlocutores e deu visibilidade aos media locais, desde logo por receber um prémio nacional com pouco mais de um ano de existência.
Uma década passada ESTE JORNAL CONTINUOU A INFORMAR, A MOSTRAR O MANIFESTO DA CRISE, algumas das grandes empresas da Guarda faliram… a dívida da autarquia foi aumentando de dia para dia, o governo tomou uma das mais danosas medidas para a região quando introduziu portagens nas SCUT, a PLIE, auspiciosa âncora da economia local, parece ser um fardo para os seus acionistas, o setor da construção civil e imobiliário pára, cada vez mais gente é atirada para o desemprego, as instituições de ensino têm cada vez menos alunos e os jovens emigram pois a região, o país não têm trabalho para lhes oferecer…TUDO ISTO CONFLUI EM DADOS DEMOGRÁFICOS ASSUSTADORES, COM UMA RECESSÃO QUE PROJETA UM NÃO FUTURO.
E quando no ano treze (13) de existência d’O Interior, os cidadãos do concelho da Guarda provocaram um histórico resultado eleitoral, quando decidiram CHEGA!!!, chegou e bastou…maioria absoluta para a frequente (e até então pouco eficaz) oposição, para a vitória expressiva de uma coligação de direita, de um candidato que não é da Guarda. UM CENÁRIO NOVO E, NO MÍNIMO, ATÍPICO INSTALOU-SE e não tenho dúvidas que tenha sido uma “bolsa de ar” no, até então, pacífico (ainda que angustiante) voo dos órgãos de comunicação social locais.
Mas “O Interior”’, após ter verticalizado alguns metros no momento “ÁLVARO AMARO ARRASA PS NA GUARDA”, tem mostrado uma interessante adaptação à nova realidade. Se por um lado noticia e opina sobre as BOAS PRÁTICAS CHEGADAS À CÂMARA (porque elas existem, sendo reconhecidas pelos próprios funcionários ou sendo visíveis no aumento da eficiência da atuação municipal em geral), também mostra que NEM TUDO ESTÁ BEM, QUE A GUARDA TEM UM PASSADO (do qual também este jornal faz parte) que se cria incómodos à governação também dá conforto a alguma da sua atuação, que é importante perceber que a criatividade não tem que significar criar alguma coisa do zero, muitas vezes significa INOVAR, OU SEJA, MELHORAR ALGUMA COISA JÁ EXISTENTE.
E ESTA NOVA GUARDA QUE QUER MUITO SER NOTÍCIA LÁ FORA, QUER SEJA PERTINENTE, IRRELEVANTE OU MESMO RIDÍCULA, onde o que parece interessar é aparecer, começa a ser incómoda. Há uma certa vaidade que por vezes envergonha. Por outro lado, não se pode ter a arrogância de achar que tudo está mal, de que haverá uma Guarda AAA e uma Guarda DAA. A ser assim conclui-se haver um erro de enfoque pois MAIS DO “THINK OUTSIDE THE BOX” PARECE QUE ASSISTIMOS A UM “CLIMB TO THE TOP OF THE BOX”, onde o interesse não está tanto no “objeto” de desenvolvimento, mas no posicionamento de alguém relativamente a esse mesmo “objeto”. Mas acreditemos que não.
Ainda assim, e para terminar com uma questão muito concreta e de 2015, porque é que se a ideia da Câmara é que os cidadãos da Guarda decidam se o trânsito deve, ou não, voltar à Rua do Comércio, para quê gastar já os 160.000,00€ numa intervenção cuja única funcionalidade é possibilitar que o trânsito passe? E que tal colocar o assunto em discussão pública, tal como a lei prevê, antes de fazer o que quer que seja? Assim, com franqueza, mais parece ser uma ação de IMPRESSÃO DA MARCA AA.
Cláudia Quelhas *
* Arquiteta e colaboradora do jornal OINTERIOR



