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Das mortes no Natal à queda da PT (parte 2)

5- A organização, a planificação só faz sentido com boas lideranças. Tornado claro que ninguém avalia, como teremos bons líderes? Só por sorte um homem brilhante, coerente, culto, com projeto chegará à gestão de uma unidade. A verdade é que neste corrupio de favores e de amizades criadoras de poder e geradoras de rede, surgem sempre os mesmos protagonistas. Temos diretores de algo que são presidentes de mais sete ou oito coisas, construindo uma incapacidade óbvia de exercício atento da chefia. Temos famílias inteiras movidas para dentro de Instituições públicas por favores políticos. Vão à ARS e vejam como muitos nomes coincidem. Vão a hospitais mais pequenos e descobrem famílias inteiras a depender do mesmo empregador. E é só na Saúde? Não, é por toda a administração pública e por todos os Institutos do Estado. Até no Parlamento se sucedem os filhos dos que fizeram a primeira Constituição de Abril.

6- As Urgências são exatamente o fruto de tudo isto e são o caos que se conhece devido a maus chefes, péssimas decisões não avaliadas, ausência de projetos de eficiência. As urgências são a montra de um Serviço Nacional de Saúde doente, como está doente a PT, o BES, os transportes públicos, a governação. O motivo é exatamente o mesmo: a impunidade do prevaricador, o desleixo e a omissão dos ofendidos, dos prejudicados. É também o fruto óbvio de uma quantidade de ineficientes instituições de regulação que não servem para melhorar o sistema. As urgências são o lugar onde morrem os que não tomam mais a medicação por dificuldades financeiras, os que chegam tarde porque não encontraram outro lugar para se tratar, os que chegam em manada e, portanto, não há campinos que cheguem, nem gente, nem lugares que os possam valer. As urgências são o leito onde desaguam os cuidados continuados despidos de função de tratar agudos, onde descarregam as consultas abertas despidas de MCDT’s, onde aportam os pobres com frio, os abandonados com fome, os estigmas sociais, a violência familiar, o alcoolismo, a droga. É entre eles todos que está o pobre coitado que não foi visto e morreu. Esgotam-se as macas, esgota-se a paciência, esgota-se a capacidade de fazer bem. As urgências têm chefias deficientes que não estão ligadas a gestão de camas, a decisões clínicas que resolvam eficazmente as singularidades. O imprevisível é que distingue a resposta dos melhores e a capacidade de decisão dos chefes. Não se pode regular o imprevisto, mas pode escolher-se quem se adequa mais ao surpreendente, sem pânico e sem fuga.

7- Faltam profissionais? Não. Em Portugal há uma produção excessiva para as nossas necessidades quer de médicos quer de enfermeiros. O que não há é horários com correspondência de funções, não há espaços para dar trabalho a tantos médicos. O que não há mesmo é estudo de rácios feitos de modo sério e não corporativo (e logo doente). Os médicos não são avaliados pelos seus resultados nem os diretores pela sua eficiência. Assim há serviços com dezenas de médicos sem função adstrita. Depois há um velho erro português: a preguiça de uma geração despiu de funções técnicas, de habilidades profissionais, os jovens médicos e assim temos enfermeiros super habilitados e desejados no mundo inteiro e temos médicos sem quaisquer habilidades e sem performance de beira de cama, que são disfuncionais em toda a Europa menos aqui. O jovem médico dita afazeres que não sabe executar. Uma disfunção que tem três décadas. Uma quantidade enorme de médicos produz uma desnecessidade de meios complementares por não estarem adequados à função para que os necessitamos. Aqui há culpas de formação, de observação com medo, de ausência de acompanhamento.

8- As reformas vão sendo feitas ao sabor de “videntes” ou de “testemunhas” de outros sistemas. Vem um governante e decide fazer umas coisas que viu e gostou na Finlândia. Chega o próximo impondo Centros de Saúde da Suécia, e depois há os adeptos do sistema privado. Mas não há uma reforma coerente, alicerçada na missão bem definida e clara do SNS. Assim, com as incoerências ao rubro, público e privado vivem numa promiscuidade chocante em que diretores privados têm funções decisórias no público. As escolhas estéticas que não deviam ser missões primárias do público são pagas por todos e patologias graves como incontinências e retenções urinárias são obrigadas a despender as poupanças de uma vida para poderem viver. Esta ausência de avaliação clínica do processo de decisão e de aposta está diretamente ligada a um método grosseiro e impiedoso de fazer gestão em saúde. Na saúde atracam gestores de salsichas, grumetes de conservas, ex-militares, até diretores de finanças, todos brilhantes e tecnicamente intocáveis mas sem qualquer sensibilidade para o exercício da coisa pública, do Serviço que tem de ser prestado pelo SNS.

Há tanto mais que podia desabafar neste verter de frustração que me acompanha a carreira. Fiz questão de não abordar o que é pessoal, a ausência de salários dignos, as culpas da Ordem dos Médicos como mais um regulador, a falência das negociações sindicais, o facto da larga maioria dos médicos nem sequer ser sindicalizada, a ignomínia da forma como escolhemos os profissionais. Fiz questão de deixar de fora as culpas da formação universitária.

Por: Diogo Cabrita

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