Definir “cidade” neste início de século é, em tudo, um conceito nada convencional. Poderemos estar perante um conceito pouco quantificável – uma cidade é hoje tanto menos, ou tanto mais cidade, quanto mais numerosos e abrangentes forem os serviços prestados aos seus moradores e quanto maior for a sua área de influência nas redes regionais.
Quantos de nós num qualquer dia já se perguntaram sobre o porquê de um determinado aglomerado, sob o ponto de vista político-administrativo, ser vila ou cidade? De ser mais ou menos importante do que o título que ostentava, sem que não se tenha obtido uma resposta clara inequívoca e objetiva. O que é certo é que todos têm para si a ideia própria daquilo que, de facto, aquela povoação é e onde está essa distinção. No fundo, avaliamos o índice de urbanidade como que transportados para uma qualquer teoria das ideias de Platão, na qual as ideias ou formas residiam no mundo inteligível, fora do tempo e do espaço.
O facto de as coisas serem como são transporta-nos para conclusão inevitável: haverá tantas ideias quantos os indivíduos, todos sabendo o que é uma cidade mas sem ninguém conseguir dar uma definição em que todos se reconheçam.
Transporta-nos esta reflexão para o sentir coletivo da nossa identidade regional: a cidade da Guarda e os seus termos; os serviços prestados e a sua área de influência, tanto no contexto regional como no núcleo sub-regional. O contexto regional onde a Guarda se insere é, evidentemente, o Centro, o qual integra as áreas sub-regionais dos distritos de Aveiro, Castelo Branco, Coimbra, Leiria e Viseu. E, porque as divisões administrativas em Portugal são difusas, poderemos também socorrermo-nos de outras nomenclaturas para identificar um mesmo território mais ou menos coincidente, identificado por NUT (nomenclatura de unidade territorial para fins estatísticos) e mais recentemente as CIM, (comunidades intermunicipais), que espelhem o que somos, o que representamos, os serviços prestados e onde chegamos.
Não pretendendo de modo nenhum fazer uma inventariação exaustiva dos serviços e dos lugares a comparar, importa no entanto despertar a consciência de cada um para aquilo que muitos já tomaram consciência: a perda de importância no contexto local, sub-regional e regional – e o consequente encurtamento da área de influência. Em analogia com o país, também aqui o centro de decisão se vai deslocando. Exemplos disso não faltam, desde os serviços públicos aos interesses industriais e comerciais.
Razões para isto, para este estado a que se chega: o conformismo das gentes; a inércia dos políticos; e a falta de audácia dos empreendedores privados. São paradigmas aparentemente indeléveis, mas que urge alterar! A maioria das vezes, a distância entre ter e conseguir e não ter e falhar, é uma fronteira muito ténue que está dependente do querer contrariar o conforto, a indiferença e o conformismo.
Mudar não está dependente de meros paliativos de cosmética. Requer medidas de fundo que reabilitem a autoconfiança das pessoas e as tornem em gente inconformada, que quer mais e melhor. Igual prática se requer aos decisores políticos e a todos os quadrantes sociais.
Esperar pelo passar do tempo não é solução. A mudança urge. Estamos, pois, numa encruzilhada de um momento crucial: ou é agora, ou nunca.
Cabe a todos e cada um de nós pugnar pelo crescimento sub-regional de forma altruísta, para que todos possamos usufruir de melhores condições de vida não defraudando os anseios da gerações vindouras, nem desonrando as gerações que antecederam.
Não acompanhar a evolução traduzir-se-á em menos qualidade nos serviços prestados aos cidadãos, menos cidade e mais distância.
Por: Acácio Pereira



