Mitocôndrias e Quasares de António Costa: Quando o dia se transforma em noite

Escrito por António Costa

Ao final desta tarde de 12 de agosto de 2026, a Lua irá passar entre a Terra e o Sol, criando um dos mais impressionantes espetáculos da natureza: um eclipse total do Sol. A faixa de totalidade atravessará a Gronelândia, a Islândia e o Atlântico Norte, alcançando depois o extremo nordeste de Portugal e o norte de Espanha. No restante território português, o eclipse será parcial, mas nem por isso menos extraordinário: em grande parte do país, mais de 90% do disco solar ficará ocultado.
Um eclipse solar ocorre quando a Lua se posiciona entre a Terra e o Sol e projeta a sua sombra sobre o nosso planeta. Embora o Sol tenha um diâmetro cerca de 400 vezes superior ao da Lua, encontra-se também aproximadamente 400 vezes mais distante. Esta extraordinária coincidência faz com que os dois astros aparentem ter dimensões semelhantes no céu. Quando o alinhamento é suficientemente rigoroso, a Lua consegue encobrir o disco solar.
A sombra projetada pela Lua divide-se em duas regiões principais. Na penumbra, apenas parte do Sol fica escondida, dando origem a um eclipse parcial. Na umbra, a região central e mais escura da sombra, o disco solar é completamente ocultado e ocorre a totalidade. Durante esses breves instantes, o céu escurece como ao anoitecer, a temperatura pode baixar e alguns animais alteram o seu comportamento. Em volta da Lua torna-se então visível a coroa solar, a ténue atmosfera exterior do Sol, normalmente ofuscada pelo intenso brilho da sua superfície.
A totalidade, contudo, apenas pode ser observada dentro de uma faixa estreita. Fora dela, mesmo que permaneça visível apenas uma pequena parcela do Sol, o eclipse continua a ser parcial. Em Portugal continental, o fenómeno terá início por volta das 18h30 e atingirá o seu máximo cerca das 19h30, com pequenas variações consoante a localização. Como o Sol estará já muito baixo no céu, será fundamental escolher um ponto com o horizonte a poente completamente desimpedido de árvores, edifícios ou elevações. A percentagem de ocultação será maior no Norte e diminuirá gradualmente em direção ao Algarve.
Apesar do fascínio provocado pelo fenómeno, olhar diretamente para o Sol sem proteção adequada pode causar retinopatia solar, uma lesão fotoquímica da retina potencialmente irreversível. O perigo é particularmente insidioso porque a retina não possui recetores de dor: a lesão pode ocorrer sem que a pessoa sinta qualquer incómodo imediato. Horas mais tarde, podem surgir visão desfocada, manchas escuras no centro do campo visual, alteração das cores ou distorção das imagens. Alguns casos melhoram com o tempo, mas outros deixam sequelas permanentes. Óculos de sol comuns, radiografias, películas fotográficas, vidro fumado, CDs e filtros improvisados não proporcionam proteção segura.
A observação deve ser feita exclusivamente com óculos de eclipse ou visores solares certificados segundo a norma internacional ISO 12312-2. Antes da utilização, é importante verificar se apresentam riscos, furos ou outros danos. Binóculos, telescópios e câmaras exigem filtros solares apropriados, instalados à frente da objetiva. Nunca se deve observar o Sol através destes instrumentos usando apenas óculos de eclipse, pois as lentes concentram a radiação e podem provocar lesões oculares graves. Em alternativa, pode recorrer-se à observação indireta, projetando a imagem do Sol através de uma pequena abertura.
A proteção só pode ser retirada durante a totalidade completa e exclusivamente por quem se encontre dentro da respetiva faixa. Deve voltar a ser colocada assim que surgir o primeiro ponto luminoso do Sol. Fora da faixa de totalidade, os óculos têm de permanecer colocados durante toda a observação. As recomendações completas podem ser consultadas na página de segurança para a observação de eclipses da NASA.
Em Portugal, o local mais privilegiado será o extremo nordeste do Parque Natural de Montesinho, no distrito de Bragança, sobretudo nas proximidades de Rio de Onor e Guadramil. Trata-se, porém, de uma área extremamente reduzida, situada no limite da faixa de totalidade. O encobrimento completo do Sol, caso seja visível, durará apenas alguns segundos. Uma deslocação de poucos quilómetros — ou até pequenas diferenças na determinação do limite da sombra — poderá significar a diferença entre assistir a um eclipse total e observar um eclipse parcial de 99,9%. Será uma diferença mínima nos números, mas enorme para quem olhar para o céu.

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