Anda grande alvoroço entre os adeptos da literatura clássica que, de repente, se descobriram nos vários espaços públicos, reais, digitais e virtuais. Não vou falar do novo filme de Christopher Nolan, “Odisseia”, mas não por ainda não o ter visto, que isso não impede ninguém de falar de coisa nenhuma hoje em dia, mas porque não é o filme que me traz aqui. Para confessar a verdade, ando nestas páginas há tantos anos que já não me lembro bem o que me trouxe aqui.
Nas últimas semanas, assistimos ao milagre do renascimento dos fanáticos de poesia épica helénica, gente que conhece todos os pormenores da Ilíada e da Odisseia, que não admitem que se esconjure o hexâmetro dactílico, em que agora nos tornámos especialistas e de que todos devemos ser devotos, como se a própria civilização disso dependesse.
Parece que o fim do mundo, como descrito no Apocalipse e outras mitologias, é trazido por uma adaptação cinematográfica da viagem de regresso de Ulisses (ou Odisseu) feita pelo realizador de “Inception – A Origem” e “Batman – O Cavaleiro das Trevas”. Tal como nestes filmes, Ulisses (ou Odisseu) é apenas mais uma personagem à procura de chegar a casa e dormir sossegado. Os puristas estão zangados porque Nolan desconstrói a narrativa, altera sequências temporais, dá nuances narrativos às personagens, corporiza as personagens em actores com diversidade étnica. Realmente, isto são intervenções que ninguém tinha feito desde os milhares de gregos antigos que recontavam oralmente os episódios da mitologia grega, até que alguém tivesse fixado os textos, em forma de poema ou peça de teatro.
Usar novas linguagens artísticas para recontar velhas histórias tem sido horrível para a história da cultura. Que o digam os relevantíssimos autores dos contos italianos ou dinamarqueses em que William Shakespeare se baseou para escrever as suas péssimas adaptações de “Romeu e Julieta” ou “Hamlet”, pouquíssimo fiéis às versões originais.
O filme de Nolan teve o condão de fazer emergir um conjunto de evangélicos da palavra de Ulisses (ou Odisseu). A propósito deste nome, se é verdade que Odisseia é a epopeia de Odisseu, também nos habituámos a acreditar que Lisboa tem origem no nome Ulisses. Mudaremos agora o nome da nossa capital para Disboa?
Para os histéricos que consideram que a Odisseia de Nolan estraga a Odisseia de Homero, trago uma proposta que me parece simples e eficaz. Não vejam a primeira, leiam a segunda. Aposto que também vão gostar.
* O autor escreve de acordo com a antiga ortografia


