Opinião de Pedro Fonseca: Sempre para casa

Escrito por Pedro Fonseca

Haverá muitos motivos para o desinteresse crescente pela política. Mas nenhum será mais triste do que aquele que decorre da ausência de atenção à dimensão afetiva. Uma análise cuidada de muitas das políticas implementadas em diversas áreas revelará que a grande maioria é pensada sem ter em consideração a importância da nossa estabilidade emocional.
Este cenário agrava-se quando passamos da implementação de medidas pontuais para a normalização de processos. Um desses processos, que tem tanto de insensato como de cruel, constitui a resposta comum à perda de autonomia das pessoas com o avançar da idade: é chegada a hora de abandonar a sua casa para ir viver com um familiar ou para ser institucionalizado num lar.
Assim, a velhice passa a estar equiparada a um longo e penoso processo de perda. Aos poucos vamos sendo privados de quase tudo o que antes preenchia os nossos dias. Até que, na fase final, nos retiram a nossa própria casa. Tirar a casa a alguém é tirar-lhe muito mais do que um espaço físico. É cortar o último cordão umbilical com uma vida tida como normal. Com efeito, é uma parte nuclear da dignidade do ser humano que se perde.
Mas os idosos que são forçados a abandonar os seus lares não são as únicas vítimas desta prática. Longe disso. Quando se fecha a porta da casa dos pais e dos avós, também se está a privar as gerações mais novas de um sentimento de conforto e de magia que não existe em mais parte alguma.
Nas sociedades ocidentais, a queda da natalidade e o aumento da esperança média de vida são indicadores seguros de que o envelhecimento da população veio para ficar. A possibilidade de as pessoas viverem nas suas próprias casas, com acesso a todos os cuidados de que necessitam, será um dos grandes desafios das próximas décadas. Num quadro mais amplo, a delineação de políticas que se reencontrem com os próprios fundamentos da condição humana será, seguramente, um dos principais desígnios do século.
Uma das formas de interpretar a nossa existência é equipará-la a uma longa viagem em busca da nossa “casa”. O que cada um define como a sua “casa” varia. Pode ser um estado de alma que reside algures no nosso interior. Pode ser aquele lugar no mundo ao qual sentimos que pertencemos. Ou pode ser simplesmente a casa dos nossos pais.
Talvez fosse mesmo para esta última que a pena venerável de Novalis apontava quando, de forma branda, sentenciou a lógica de uma vida transformada em peregrinação: «Para onde estamos realmente a caminhar? Sempre para casa…».

* pedrorgfonseca@gmail.com

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