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O plano B

Dizia há dias António Costa (a abrir a comissão nacional do PS, em Setúbal): «A melhor forma de defender o projeto europeu, de defender o euro, é criar condições para que no campo democrático dos defensores da integração europeia, dos defensores do euro, seja possível criar alternativas que reforcem a Europa e que reforcem o euro». Acha portanto António Costa que é «preciso criar condições» para que seja «possível criar alternativas» que reforcem a Europa e o euro. Fantástico. Como não se tinha ainda ninguém lembrado disto? O eleitor comum, ao ouvir isto, apreciará certamente, mas apenas, o talento de António Costa em dizer tão pouco com tantas palavras.

Passos Coelho, comentando as primeiras medidas do governo formado pelo Syriza, entre as quais se destaca um aumento do salário mínimo em quase cinquenta por cento, atirou para o ar um sarcasmo sobre “contos de crianças”. Saberá Coelho que todas as crianças ambicionam ser felizes e ter uma vida em que lhes não falte o essencial e que essas ambições não se devem realizar apenas nos contos de fadas? Ouvindo Coelho, nessa e noutras intervenções, parece estarmos condenados, para sempre, a salários baixos, a prestações sociais mínimas, ao salazarento Portugal “pobrete mas alegrete”. Era muito mais agradável o seu discurso quando estava na oposição, não era?

E estas são, resumidas, as posições mais evidentes dos nossos dois principais partidos: um não diz nada e o outro promete a perpetuação da miséria.

«Nós hoje já estamos a fazer o caminho que nos permitirá dizer quem quer combater a precariedade, desendividar as famílias, criar abertura na Europa para renegociar a dívida, e reconhecer a independência da Palestina logo no primeiro ano da legislatura», diz Rui Tavares na apresentação da plataforma “Tempo de Avançar”. Da precariedade à Palestina, tem as «certificações» quase todas. Mas pelo menos fala em coisas concretas e mostra esperança numa melhoria. Apresenta também um plano, mesmo que seja tão frágil como é a simples renegociação da dívida.

Na abertura das jornadas parlamentares do PCP, protestava Jerónimo de Sousa, na segunda-feira, contra os aumentos de impostos e contra os despedimentos na função pública. Manifestando esperança nos «ventos de mudança» que sopram na Europa, exige alternativas – embora também ele não concretize muito. Basta-lhe, parece, a diminuição da receita fiscal e a manutenção da despesa, saberá ele com que meios, ao mesmo tempo que espera o resultado do que os ventos da Europa irão fazer quanto à negociação da dívida grega e, por arrasto, da nossa.

É aqui que todos param, e onde pararia António Costa se tivesse coragem de dizer o que pensa sobe o assunto. Numa negociação há a outra parte, a que responde às nossas propostas. Temos sempre de estar preparados para um não e até agora nem Tsipras, nem Iglesias e nem, muito menos, Rui Tavares ou Jerónimo de Sousa, apresentaram um plano B credível. Esperemos por isso pelo não de Merkel a Tsipras e pela alternativa que este terá preparada, se a tiver.

Por: António Ferreira

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