Decorreu no passado fim de semana mais uma edição da tradicional Festa das Papas, na Póvoa de Atalaia (Fundão). Já se perdeu a conta aos anos que tem esta festa, mas diz a lenda que a região foi vítima de uma praga de gafanhotos que atacava as colheitas e, como forma de acabar com ela, foi prometido ao mártir São Sebastião que a população iria oferecer papas de carolo e coscoréis (filhós) feitos com o que resultasse das colheitas salvas.
«Os gafanhotos foram então morrer à porta da capela de São Sebastião», conta Maria Nabais, que sempre viveu e cresceu na aldeia e desde sempre se recorda de ouvir esta história. Todos os anos são escolhidos 25 casais mordomos residentes num bairro da localidade, desses oito ficam responsáveis por fazer as papas e as filhós que no passado domingo foram distribuídos pela população. No dia da festa, que todos os anos se realiza no terceiro domingo do mês de janeiro, depois da missa, as mulheres desfilam em cortejo com os cestos das iguarias à cabeça até à capela de São Sebastião, onde as papas e filhós são benzidas. Depois, é a vez dos homens entrar em ação. Envergando vestes de linho bordadas, com a ajuda de pequenos açafates, distribuem as ofertas à população. Ninguém quer faltar a este momento, pois dizia-se que quem comesse uma destas iguarias «teria saúde o resto do ano», recorda Maria Nabais.
No final, Marília Mesquita mostrava-se bastante contente com o resultado, até porque foi a primeira “festeira”: «Era uma responsabilidade de muito trabalho, mas no fundo foi muito gratificante», confessou a O INTERIOR. O trabalho começou em abril com a apanha do milho, «depois é necessário moer, tratar dele, conseguir ovos caseiros», tudo para garantir que no dia da festa haja papas e filhós em quantidade suficiente para todos os que queiram estar presentes. Este ano foram feitos cerca de 80 quilos de filhós e de papas. Apesar de tudo, Marília Mesquita lamenta que cada vez haja menos mordomos a participar.
Para a presidente de Junta da União de Freguesias de Póvoa de Atalaia e Atalaia do Campo, «esta é uma tradição que tem que ter continuidade e divulgá-la cada vez mais». Susana Salvado considera que é uma festa única na região, «conhecida pela partilha», e que atrai muita gente. Este ano, cerca de mil pessoas terão passado pela Póvoa da Atalaia durante o último fim-de-semana, estima a autarca. Lurdes Salvado é natural da aldeia, mas vive em Castelo Branco, e não passa um ano sem ir à terra participar nesta festa. Não é a única e garante que «é uma forma de encontrar quem não vejo há muito». Desde pequena que vê a mãe, Laura Salvado, ajudar na festa, também ela cresceu com esta tradição que considera «um sonho de tão bonita». No passado fim-de-semana pôs fim à azáfama dos festeiros de 2015, todos residentes na Rua do Trabalho. Em abril, será a vez dos moradores da Avenida 1º de Maio começarem a preparar a Festa das Papas do ano que vem.
Ana Eugénia Inácio


