Lembro-me de ser miúda e ter uma sensação claustrofóbica da cidade.
E apesar de ter ido e ter voltado tenho recorrentemente a mesma sensação. E, de vez em quando, digo lá em casa: «Precisamos sair». Como se precisasse de receber lá fora alguma coisa que a cidade não me dá.
Esta é a minha relação com a cidade que não me viu nascer, mas à qual pertenço desde quase sempre.
Muitas vezes perguntam-me se gosto de cá viver. E eu, que sim, que gosto. Tenho aqui grande parte da minha família, o meu trabalho, encontrei aqui o companheiro da minha vida, as minhas filhas são também filhas da cidade, tenho amigos que adoro. E as minhas memórias quase todas.
E isto não é a resposta à pergunta. Porque, de facto, esta poderia ser a resposta se eu vivesse em qualquer outra cidade.
Mas da cidade? A cidade em si? Tenho muita dificuldade em responder, porque não me consigo abstrair da minha vivência aqui. Se a cidade é bonita? Tem dias. No Inverno é sombria e cinzenta. O tempo rigoroso torna-a até deprimente, de ruas vazias, corpos gelados… mas depois vou tomar café e sou recebida com um sorriso franco e aberto: «Então, não me diga que está com frio!» «Deixe lá, fica rija, este ar é o mais saudável do país, não acredita?! – É o de sempre?» E esta frase, o de sempre, é como se me pegassem ao colo, o de sempre, que é de quem me conhece de sempre! E isso é bom.
A cidade em si significa termos tudo o que precisamos? Pois. Não. A Guarda está envelhecida, afinal são 815 anos! O desemprego é preocupante. A falta de estudantes também. A desertificação é uma realidade. O tecido empresarial é quase nulo.
A Mafalda é a minha filha mais nova. Tem 8 anos. E desde os 3 que quer ser arquiteta. O Ricardo é colega da Mafalda e o seu melhor amigo. Há dias tivemos uma conversa muito construtiva em que ele me dizia que queria ser primeiro-ministro. Não o tentei dissuadir, mas perguntei-lhe o que queria ser em segundo lugar se não fosse possível de todo ser primeiro-ministro. E a resposta saiu-lhe naturalmente como se fosse a coisa mais óbvia do mundo: «Presidente da Câmara». E que ia criar mais emprego e acabar com a crise, com a garantia que contrataria a Mafalda para sua arquiteta e que já tinha muitas ideias sobre o que construir na cidade.
A Mafalda chegou-se à frente, porque afinal ela é que será a técnica, e arrematou: «Vou pôr esta cidade espetacular! Estradas sem buracos. As casas pintadas para não parecerem feias e velhas. E sabes ali, ao pé da Sé? Aquelas casinhas todas podres e a cair? Vou lá fazer umas casas espetaculares, com lojas e cafés» – e claro que depois começou a “viajar” a dizer que me fazia a mim, uma casa com spa, ginásio e elevador e com a mesma vista do Hotel Vanguarda «porque eu gosto muito daquela vista, mãe!»
A Mafalda e o Ricardo são filhos desta cidade. E é incrível a perceção que têm do sítio onde vivem. A sensibilidade que manifestam sobre os problemas da Guarda num linguajar de 8 anos e na inocência das crianças que ainda são. E se os “pequenos” têm esta perceção, os “grandes”, além da obrigação de a terem, têm também responsabilidade de, por um lado, permitirem que a situação da Guarda seja tão flagrante que até uma criança de 8 anos se apercebe, e, por outro, da inércia política dos governantes locais em dignificar a Guarda como capital de Distrito.
Algumas coisas têm sido feitas, no sentido de criar um estado de espírito no cidadão guardense de ânimo, algumas coisas têm sido feitas, no sentido de trazer as pessoas para a rua, o que, necessariamente, as obriga a olharem para os outros e para o que as rodeia.
Mas atenção que nem só de festas vive o homem e se não quisermos viver para sempre na ressaca do “after party”, temos de arregaçar as mangas e fazer muito mais.
Não sei se a Mafalda será a próxima Siza Vieira ou se o Ricardo será um sucessor de Passos Coelho ou de Álvaro Amaro, mas são certamente o futuro. E era bom que pertencessem ao futuro da Guarda, para bem da própria.
P.S. : Se os governantes da cidade tiverem falta de ideias a Mafalda e o Ricardo frequentam o 3º ano da Escola Básica Adães Bermudes.
Carla Freire
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