Hoje assinala-se o terceiro aniversário do dia em que o terror invadiu o sul de Israel. Naquela manhã de 2023, militantes do Hamas atravessaram a fronteira de Gaza e perpetraram o massacre mais mortífero contra judeus desde o Holocausto: mais de 1.200 pessoas assassinadas de forma cobarde, centenas de reféns arrastados para túneis, famílias inteiras dilaceradas em festivais de música, kibutzes e casas que deviam ser refúgio.
Três anos depois, a memória desse dia continua a definir o presente. A guerra que se seguiu transformou Gaza numa paisagem de ruína e luto, com um custo humano devastador que não pode, nem deve, ser branqueado por nenhuma causa. Dezenas de milhares de palestinianos morreram, muitos deles crianças, numa espiral de violência sem vencedores.
É tentador, nestes aniversários, escolher um lado e gritar mais alto. Mas todos devemos refletir sobre o horror que foi o dia 7 de setembro de 2023 e sobre o horror que se vive em Gaza desde então. E pensar sobre o 7 de outubro obriga a recusar falsas equivalências sem, por isso, aceitar que o sofrimento de um povo justifique a negação do sofrimento de outro.
O que aconteceu nesse dia foi um ato de terrorismo deliberado contra civis, premeditado e celebrado por quem o cometeu. Isso não se dilui, não se “contextualiza” até desaparecer. Mas reconhecer essa verdade não exige cegueira perante o que veio depois: uma campanha militar que, independentemente das suas justificações de segurança, multiplicou o número de inocentes mortos muito além de qualquer proporção defensável.
Três anos depois, os reféns que ainda não voltaram para casa são o símbolo mais cru de uma ferida aberta. E Gaza, em ruínas, é o símbolo de uma resposta que ultrapassou os limites que a própria humanidade devia impor-se.
Lembrar o 7 de outubro não pode ser um exercício de propaganda, seja ela qual for. Tem de ser, acima de tudo, um compromisso de memória — para que o horror não se repita, e para que a dor de uns nunca sirva de desculpa para infligir dor a outros. Só assim este dia deixará de ser apenas uma data de luto para se tornar também um ponto de viragem.


