Opinião de António Ferreira: Tempo de tiranos

Escrito por António Ferreira

A AfD acaba de ganhar por larga margem as eleições na Saxónia-Anhalt. O Vox, em Espanha, o Reform UK, no Reino Unido, e o Fratelli d’Italia vão em breve a votos. Marine le Pen espreita a presidência em França e é desta vez a favorita. Os apoios à sua eleição vêm, às claras ou clandestinamente, do movimento MAGA, nos EUA, ou de Putin. O inimigo declarado de todos eles é a democracia liberal, que reduzem ao laxismo nos costumes, à fraqueza na luta contra a imigração ilegal e a décadas de corrupção – de que eles próprios estariam isentos, assim como estariam isentos dos vícios e malefícios do “sistema”.
O argumentário é pobre e apenas funciona para um público, lamento ter de o dizer, de baixa escolaridade e condição, mais propício a acreditar nas suas patranhas. É aliás típico dividirem-se esses partidos e movimentos em duas classes de pessoas: os que inventam as aldrabices e os que acreditam nelas.
Têm outra coisa em comum, o chefe. O caudilho, o führer, o duce, o homem providencial ou o que quiserem chamar ao putativo salvador de uma qualquer pátria é o cimento agregador e é à volta dele e em função dele que todo o discurso demagógico é construído. O MAGA não sobreviverá sem Trump, nem ele deixa que alguém lhe faça sombra. Nenhum dos tiranos da história deixou nomeado um sucessor e todos acreditaram na eternidade da sua posição.
Essa tendência do caudilho para se eternizar no poder levou Orban, na Hungria, os irmãos Kaczynski, na Polónia, Erdogan na Turquia, Trump, nos EUA e Putin, na Federação Russa, a tentarem destruir o Estado de direito e os seus fundamentos – com variados graus de sucesso. Todos atacaram o poder judicial e a liberdade de expressão, todos se serviram da mentira para atacar os seus adversários e todos tentaram, também com diferentes graus de sucesso, eternizar-se no poder.
Convinha agora fazer as contas e mostrar ao mundo o que a extrema-direita, quando no poder, alcançou de verdadeiramente notável. Trump está a conseguir destruir a economia americana, Orban fez o mesmo na Hungria, as ideias de Farage, que ganhou o Brexit, empobreceram o Reino Unido, nenhum conseguiu um sucesso que se visse a não ser o triunfo do ódio e da ignorância. O ataque às vacinas e à ciência em geral nos EUA e noutros países fez regressar doenças que podiam estar erradicadas e agravou os problemas trazidos pelas alterações climáticas. O ataque às universidades e à imprensa têm como objectivo manter na ignorância o seu público-alvo, de modo a fazê-los acreditar que não é culpa sua serem pobres e que se não fosse a corrupção, por exemplo, podiam reformar-se aos 64 anos ou ainda mais cedo.
J. D. Vance deveria saber mais. No livro que o tornou celebre e acabou por lhe dar a vice-presidência dos EUA ele refutava as ideias centrais do populismo e dizia que cada um tem, como ele, de tomar o seu destino nas mãos e deixar de encontrar culpados fora de sua casa. O populismo é também isto, é dizer hoje uma coisa e amanhã o seu contrário, é procurar encontrar inimigos que justifiquem o nosso falhanço e entregar nas mãos de um qualquer homem pouco providencial e muito corrupto a procura de uma solução que ele não tem.

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António Ferreira

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