Opinião de Fidélia Pissarra: Odeio as segundas-feiras

Escrito por Fidélia Pissarra

Mais do que o sonho, parece que, infelizmente, é o calendário, apesar de não nos podermos fiar lá muito nas atuais estações do ano, que continua a comandar-nos a vida. Salvo as exceções do costume, à segunda começamos a semana de trabalho e em agosto vamos de férias para voltarmos em setembro. Obviamente que, em termos reputacionais, desde que tenhamos trabalho e nas férias tenhamos ido e voltado, não importa, sequer, a fazer o quê ou ido para onde. Mas, em termos pessoais, já não será bem assim pois, em vez de mais animados pelo calor do sol e banhos de mar, regressaremos, dependendo do sítio e da nossa demora nele, mais ou menos conformados com a realidade que nos acolhe. É que, embora não nos tenha dado para pensar no assunto tantas vezes como seria aconselhável, já não é a primeira vez que partirmos para férias todos ufanos, por determinado acontecimento, para acabar por voltar bem menos animados com o dito.
Se não, vejamos: se fomos uma semana para o Algarve quando o salário mínimo saltou da casa dos 500 euros para os 800, partimos todos felizes e regressámos com um aumento da renda da casa que nos deixou com menos de 400 no bolso; se fomos duas semanas para a Tailândia, quando o número de diplomados no ensino superior saltou dos 32.622 para os 109.460, partimos todos esperançados e regressámos com 47,6 desses diplomados emigrados e também logo nos passou; já se fomos um mês para a Quarteira, quando os combustíveis diminuíam de preço, partimos entusiasmados para, a meio da estadia, sucumbirmos ao novo aumento. Isto, para não lembrar do incomensurável orgulho (vá lá perceber-se esta nossa tendência para que tudo o que é nosso nos parecer sempre maior e melhor do que aquilo que realmente é) com que fomos duas semanas para a Costa de la Luz, por já nos parecer excessivo o que custa uma semana algarvia, de ver o nosso IPG passar a UPG e ter matriculado 372 alunos na primeira fase, com que partimos de férias para regressar com o anúncio de que a UPB, com 802 estudantes matriculados nesta mesma fase, passará a Universidade de Bragança e do Norte Interior.
Ora, não partindo, nem chegando de férias, nada disto nos ocorreria. Não que se tenha alguma coisa contra o aumento das rendas de casa, da emigração dos nossos jovens diplomados ou a ascensão da UP Bragança a Universidade. Mas o que é demais é demais e, tenho cá para mim que, depois de quase terem avariado as estações do ano por completo, querem é que nem no calendário nos fiemos e nos deixemos mas é cá de férias. O que, em termos de autoestima, nem seria mau de todo. Pelo menos deixávamos passar os verões em paz, em vez de irmos de férias todos contentes só para depois regressarmos todos acabrunhados.
Para não começar a desanimar de todo, valha-nos o Garfield: continuaremos a odiar as segundas-feiras, acreditando que “I’m in complete control. It’s the situation that’s a little out of hand”.

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Fidélia Pissarra

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