P – Quando é que a música apareceu na sua vida?
R – A música esteve na minha vida desde sempre. Nasci no Rio de Janeiro, no seio de uma família profundamente ligada à música. O meu pai era violinista, o meu irmão é clarinetista e tive também familiares ligados à regência. Um dos meus tios foi maestro militar da Aeronáutica e dirigia concertos no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Antes de aprender a tocar, aprendi a ouvir. Essa convivência desde a infância acabou por formar não apenas o músico, mas também a minha forma de compreender a música. Aos 6 anos, o meu pai ofereceu-me o meu primeiro trompete. Foi um gesto simples, mas abriu uma porta que permaneceu aberta durante toda a minha vida. Estudei no Conservatório Brasileiro de Música e na Escola de Música Villa-Lobos, no Rio de Janeiro. Passei por grupos corais, orquestras, projetos instrumentais e pelo universo gospel, desenvolvendo também atividade como maestro de grupos corais e orquestras no Brasil. Já o jazz foi conquistando um lugar especial na minha identidade musical. Gosto da sua capacidade de combinar tradição e liberdade, composição e improvisação, rigor e criatividade.
P – Porquê criar uma Big Band? E porquê na Guarda, com o Centro Cultural?
R – A ideia nasce de uma paixão pelas grandes formações, mas também da vontade de construir um projeto coletivo com identidade, continuidade e relevância cultural. Uma Big Band permite reunir diferentes músicos, experiências e percursos numa mesma formação. É uma estrutura exigente, mas também muito rica, porque cada pessoa contribui com aquilo que traz da sua própria história musical. O jazz é uma linguagem que atravessou fronteiras e essa capacidade de viajar, transformar-se e criar encontros entre pessoas e culturas é uma das razões pelas quais acredito que faz sentido desenvolver este projeto na Guarda. Existe talento na cidade e nas regiões próximas, há músicos com diferentes percursos e uma localização que pode favorecer o contacto com outras regiões e outros contextos culturais. Por isso, não queremos apenas trazer uma Big Band para a Guarda, queremos construir uma Big Band com a Guarda. Isso significa valorizar os músicos que já existem, reconhecer o trabalho desenvolvido na região e criar novas possibilidades de colaboração. O Centro Cultural é um espaço de encontro entre artistas, músicos, público e comunidade, e acredito que a Big Band pode contribuir para esse movimento. Gostaria que pudéssemos aproximar diferentes gerações, criar momentos de aprendizagem, abrir espaço para novos músicos e fazer com que o público também se sinta parte do projeto. Ao mesmo tempo, há uma ambição maior: que a Big Band possa viajar. E quando tocar noutras cidades ou estabelecer relações com outras formações, quero que leve consigo não apenas a música, mas também a identidade do território de onde vem.
P – Como está constituída a Big Band do Centro Cultural da Guarda?
R – A formação está numa fase de crescimento e consolidação. Atualmente somos 12 músicos, da Guarda e de localidades próximas. O objetivo é chegar aos 17 elementos, pelo que estamos abertos à integração de novos músicos. A primeira apresentação pública contou com oito músicos. Mais do que reunir músicos, queremos construir um grupo onde cada elemento traz a sua experiência, formação e personalidade. O desafio está em transformar essa diversidade numa voz coletiva, onde essas histórias passem a contar uma história juntos.
P – Como foi a estreia da Big Band, realizada no sábado?
R – Foi um momento muito especial, porque marcou a passagem de um projeto que estava a ser construído nos ensaios para o encontro com o público. A estreia aconteceu no pátio do Paço da Cultura e foi uma oportunidade para apresentar o que temos vindo a desenvolver. A recetividade do público foi excelente e deixou-nos profundamente felizes. Quero agradecer, de forma muito especial, às pessoas que estiveram presentes, aos músicos que partilharam connosco esse momento e a todos os que contribuíram para que a estreia acontecesse. A ligação que se criou com o público foi verdadeiramente marcante e mostrou-nos que existe vontade de participar, ouvir e fazer parte da Big Band CCG.
P – E quais são os planos para o futuro?
R – O primeiro objetivo é consolidar a formação, integrar novos músicos, manter uma rotina de ensaios e desenvolver o repertório. Queremos apresentar a Big Band CCG com regularidade e construir uma relação continuada com o público. Mas o projeto não se esgota nos concertos, gostaria de desenvolver workshops, encontros entre músicos e iniciativas de formação, sobretudo dirigidas aos mais jovens. Quero que a Big Band possa ser também um lugar de aprendizagem, que possa abrir caminhos para músicos profissionais que procuram um espaço, para jovens que ainda estão a descobrir o seu talento e para a própria Guarda. Uma cidade culturalmente ativa não é apenas aquela que recebe espetáculos, é também a que cria condições para que as pessoas participem, aprendam e produzam cultura. É essa dimensão que gostaria de desenvolver. Também queremos estabelecer relações com músicos e estruturas de outras regiões de Portugal e, progressivamente, de outros países. Se o projeto crescer, quero que também se traduza em mais visibilidade para a Guarda e para os músicos que aqui vivem e trabalham. É esse o projeto que queremos construir: uma Big Band com identidade artística, enraizada no território, aberta à comunidade e capaz de criar relações para além dela.
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DADOS DE PERFIL
André Santos
Maestro da Big Band CCG, novo projeto do Centro Cultural da Guarda
Naturalidade: Rio de Janeiro (Brasil)
Idade: 47 anos
Profissão: Músico, trompetista e maestro
Currículo (resumido): Estudou no Conservatório Brasileiro de Música e na Escola de Música Villa-Lobos, no Rio de Janeiro; É trompetista e maestro, tendo dirigindo grupos corais e orquestras no Brasil e participando em diferentes projectos musicais;
Livro preferido: A Bíblia
Filme preferido: “A Great Day in Harlem” (1994), de Jean Bach
Hobbies: Trompete, jazz, cinema e descoberta de diferentes expressões culturais e musicais.




