O Presidente da República que no passado domingo presidiu à sessão solene comemorativa do 150º aniversário da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários Egitanienses (AHVBE) – Bombeiros da Guarda, lembrou que a revitalização do Parque Natural da Serra da Estrela é uma promessa que «se arrasta há demasiado tempo», desde o incêndio que em agosto de 2022 «durou mais de duas semanas».
No discurso da sessão solene, António José Seguro referiu que «quatro anos depois, essa promessa continua por cumprir. Quase nada foi investido dos 155 milhões de euros anunciados. Ora, quando se assinala meio século do Parque Natural da Serra da Estrela, em vez do passa-culpas, o que se exige são passos concretos para revitalizar e proteger este património natural», alertou o Presidente da República.
O Chefe de Estado chamou a atenção para o facto de ser «urgente evitar que as medidas propostas fiquem adiadas na gaveta».
Na Guarda, António José Seguro defendeu que a Serra da Estrela, «que é também um dos principais ativos da região do interior de Portugal, merece mais do que promessas».
Reiterou que tem transmitido a necessidade de se melhorar «a prevenção e a capacidade de resposta» no combate aos incêndios e que «o relatório da Comissão Técnica Independente, que avaliou os incêndios de agosto do ano passado e foi revelado há poucos dias, vai no mesmo sentido. E aponta algo ainda mais preocupante: muito ficou por fazer depois dos relatórios anteriores, dos incêndios de 2017. E essas falhas reduziram a nossa capacidade de resposta aos grandes incêndios do ano passado», disse.
Segundo o chefe de Estado, «as intempéries, as vagas de calor, os sismos, a frequência de incêndios devastadores, em Portugal e noutras geografias, clamam por uma ação atempada, mobilizadora e cientificamente fundamentada. E clamam por uma observação atenta da Presidência da República sobre a proteção e a segurança das comunidades, à qual tenho dedicado uma parte significativa do meu trabalho».
António José Seguro justificou a presença nas comemorações, no Largo Frei Pedro, onde fica a casa de Gerardo Batoréu, um dos fundadores da Associação Humanitária, como «um sinal de agradecimento e de reconhecimento» do espírito de missão. Invocou também outro motivo, «mais particular», e que remonta a uma promessa feita, numa visita ao quartel dos voluntários guardenses.
«Além de bons bombeiros, revelaram-se também bons analistas políticos. Nessa altura [13 de dezembro, na campanha eleitoral], convidaram-me para esta sessão solene, e anteciparam que eu já viria como Presidente da República. Aceitei o convite. E aqui estou a cumprir a promessa, e com todo o prazer».
António José Seguro – antigo líder da Federação do PS local e deputado pelo círculo eleitoral da Guarda – também evocou Carlos Dâmaso, presidente da Junta de Freguesia de Vila Franca do Deão, falecido a 15 de agosto de 2025, enquanto combatia um incêndio na sua freguesia: «Faleceu há precisamente um ano, quando defendia a sua aldeia de um incêndio. É um exemplo de que há pessoas capazes de arriscar a própria vida pela vida dos outros. Como, todos os dias, fazem os bombeiros de Portugal», realçou. Já as associações humanitárias nasceram «da vontade do povo» e a sua existência prova que «se mantêm válidas as razões que estiveram na sua origem. A necessidade de resolver problemas perante a ausência de resposta do Estado. O termo humanitário não é apenas uma designação jurídica. É uma identidade. Significa colocar a pessoa humana no centro de toda a ação, significa acudir sem perguntar quem é, de onde vem ou em que acredita, significa servir, ajudar e socorrer, salientou.
Na sessão solene, o presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses, António Nunes, frisou que «precisamos de sentir que o Estado, na sua globalidade, passa além das promessas, das intenções, até muitas das vezes dos pequenos factos, a uma reforma estrutural, a uma compreensão do novo fenómeno dos bombeiros portugueses», e por isso, «precisamos de ter um estatuto social de bombeiro, um estatuto dos bombeiros profissionais nas associações humanitárias, um estatuto dos dirigentes associativos e novas metodologias de combate, em particular aos incêndios florestais». Dirigindo-se diretamente ao Presidente da República referiu que «precisamos que Vossa Excelência, com a sua magistratura de influência, possa assegurar esta discussão pública, que é preciso ter, para garantir que estas mulheres e homens continuam a dar o melhor de si, como o fizeram desde há mais de 600 anos e, nesta nobre cidade, há mais de 150 anos».
Já para Fábio Pinto, presidente da AHBVE, «sempre que Portugal precisou dos seus bombeiros, encontrou-os em todas as horas mais difíceis. Responderam sempre sem hesitar e sem nada perguntar. Por isso, acreditamos que o caminho que o Governo tem procurado construir deve prosseguir ainda com maior determinação. Um caminho que conduz à valorização efetiva do voluntariado, à definição de uma carreira clara e digna para todos os bombeiros», sendo que, são necessárias respostas diferentes para realidades diferentes, porque o país que confia diariamente nos seus bombeiros tem também o dever de lhes garantir as condições necessárias para continuarem a cumprir a sua missão. Os bombeiros nunca faltaram a Portugal. Portugal não pode faltar aos seus bombeiros», sublinhou.
Também o comandante da corporação, Fábio Machado, considerou que «se queremos bombeiros preparados para responder aos desafios do futuro, temos também de criar condições para que aqueles que servem as comunidades possam olhar para o futuro com confiança», porque existem matérias, «há muito identificadas», e que devem continuar a ser trabalhadas, sobretudo, concretizar questões como «a valorização e a definição» das carreiras dos bombeiros e um modelo de financiamento das associações humanitárias que seja «estável, previsível e adequado às responsabilidades que lhes são exigidas, porque garantir a sustentabilidade das associações e valorizar aqueles que diariamente asseguram o socorro é, no fundo, garantir a capacidade de resposta às populações que todos temos o dever de proteger». Fábio Machado referiu ainda que «nenhuma tecnologia, nenhum veículo e nenhum equipamento substituirá aquilo que constitui a verdadeira força de um corpo de bombeiros, ou seja, as suas pessoas».
O presidente da Câmara da Guarda, realçou que Portugal «está ainda a aprender a combater e ainda não aprendeu a prevenir» e que a prevenção «continua a ser o parente pobre» do sistema nacional de proteção civil. Damos, e bem, meios a quem apaga os incêndios, mas damos muito pouco a quem impede que arda e, no entanto, o incêndio que não chega a acontecer é o único que nunca custa uma vida». O autarca sublinhou ainda que «apesar dos esforços hercúleos dos municípios, muito há ainda por fazer. Ardeu um quarto da floresta do Parque Natural da Serra da Estrela, no incêndio de 2022, prometeram-nos um plano de revitalização do Parque Natural, mas, as verbas, ano após ano, teimam em chegar atrasadas». O edil salientou que «é tempo de um pacto de regime» para a Proteção Civil e que o estado atual do sistema de combate aos fogos rurais «continua a ter um funcionamento por vezes débil e por vezes também descoordenado». Sérgio Costa realçou ainda a importância de concretizar a lei do financiamento das associações humanitárias e dos municípios, nas competências da proteção civil, assim como, o estatuto social do bombeiro, pedindo ao secretário de Estado da Proteção Civil, Rui Rocha, para que «leve daqui esta mensagem» ao Governo de Portugal.
Oito novas viaturas de combate aos incêndios para bombeiros do distrito da Guarda
O secretário de Estado da Proteção Civil, anunciou que na área da abrangência da CCDR Centro «serão entregues dentro em breve, julgo que até ao final deste mês», 22 veículos florestais de combate a incêndios, de um total de 45, no âmbito do apoio financeiro do Governo de Timor-Leste. Rui Rocha, referiu que oito viaturas «vão ser entregues no distrito da Guarda». O governante disse ainda que a nova Lei Orgânica da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil «está em análise» no gabinete do Ministro da Administração Interna e que «até ao final do ano», em colaboração com a Liga dos Bombeiros Portugueses, com a Associação Nacional de Bombeiros Profissionais e com a Associação Portuguesa de Bombeiros Voluntários «queremos ter concluída a estrutura jurídico-legal da carreira de todos aqueles que têm contrato de trabalho com as associações humanitárias». Rui Rocha frisou que «iniciámos na passada quinta-feira com uma equipa multidisciplinar, o processo de atualização da tipificação dos corpos de bombeiros, trabalho essencial para a construção dos contratos de programa, visando uma maior sustentabilidade e previsibilidade» no financiamento às associações.
Bombeiros da Guarda distinguidos com o Grau de Membro Honorário da Ordem do Mérito
O Presidente da República distinguiu a Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários Egitanienses (AHBVE) com o Grau de Membro Honorário da Ordem do Mérito, tendo imposto as insígnias ao estandarte da associação. Na primeira visita à Guarda enquanto Presidente da República, António José Seguro, fez questão de galardoar os Bombeiros da Guarda «em reconhecimento do papel insubstituível dos bombeiros, ao serviço das populações e do país», por ocasião dos 150 anos da AHBVE.
A Ordem do Mérito destina-se a galardoar atos ou serviços meritórios praticados no exercício de quaisquer funções, públicas ou privadas, que revelem abnegação em favor da comunidade.
Dirigindo-se diretamente aos bombeiros presentes na cerimónia, António José Seguro referiu que «não há discurso que pague o que fazem, mas, há uma coisa que Portugal vos deve sempre: memória, respeito e gratidão».
A sessão solene do 150º aniversário dos Bombeiros da Guarda, desta vez, decorreu ao ar livre, no centro da cidade.
No Largo Frei Pedro procedeu-se ao hastear da bandeira e imposição de medalhas comemorativas do aniversário. Seguiu-se a sessão solene, com discursos do Comandante dos Bombeiros da Guarda, Fábio Machado; Presidente da AHBVE, Fábio Pinto; Presidente da Câmara da Guarda, Sérgio Costa; Presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses, António Nunes; secretário de Estado da Proteção Civil, Rui Rocha e do Presidente da República, António José Seguro. As cerimónias culminaram com o tradicional desfile motorizado pelas principais ruas da Guarda.




