Editorial de Luís Baptista-Martins: Ensino Superior: uma oportunidade para o interior

1. Há números que valem pelo que representam e não apenas pelo que contabilizam. Os resultados da primeira fase de acesso ao ensino superior para 2026/2027 são, para a Universidade Politécnica da Guarda, uma razão legítima de esperança. A instituição, herdeira da experiência e do património do antigo IPG, colocou na primeira fase 372 estudantes, mais 94 do que no ano anterior, registando um crescimento de 33,8%. Num território confrontado há décadas com o declínio demográfico, este resultado merece ser valorizado.
Mas o otimismo não deve dispensar a lucidez.
É um crescimento meritório, embora nos deva suscitar uma reflexão mais ampla sobre a política nacional de ensino superior. Quando se aplica ao litoral e ao interior uma lógica essencialmente uniforme de distribuição de vagas, corre-se o risco de confundir igualdade com equidade. Territórios desiguais não podem ser tratados como se partissem das mesmas condições.
O interior necessita de uma política de discriminação positiva inteligente, não de qualquer privilégio. Uma majoração das vagas nas instituições do interior poderia constituir um instrumento de política pública para atrair jovens, reforçar a massa crítica académica e contrariar a espiral demográfica que ameaça tantas regiões. Investir no ensino superior do interior não é apenas apoiar uma instituição: é investir na coesão territorial, na economia regional e na própria sustentabilidade do país.
Há, porém, um domínio que exige reflexão particular: a Escola Superior de Turismo e Hotelaria, em Seia. Apenas sete estudantes foram colocados na primeira fase e dois dos seus cursos não registaram qualquer colocação. O dado é preocupante, mas não deve ser interpretado como uma sentença sobre o futuro da escola.
Pelo contrário. Talvez seja precisamente o momento para reinventar a sua proposta. Seia e a Serra da Estrela possuem ativos turísticos, culturais, gastronómicos e ambientais de enorme valor. O desafio está em transformar esse património numa vantagem académica, aproximando a formação das novas tendências do turismo, da sustentabilidade, da inovação, da inteligência artificial, da experiência do visitante e da internacionalização.
É por isso que os resultados deste ano devem ser lidos com confiança, mas também com ambição. A UPG tem perante si uma missão que ultrapassa a contabilidade das matrículas: afirmar-se como instituição de referência, produzir conhecimento útil ao território e demonstrar que o interior não é a periferia de coisa alguma.
2. A Câmara de Seia vai financiar integralmente as propinas dos estudantes que frequentem os Cursos Técnicos Superiores Profissionais ministrados este ano letivo na Escola Superior de Turismo e Hotelaria.
Segundo o município, a medida abrange estudantes residentes e não residentes no concelho com o objetivo de facilitar o acesso ao ensino superior e atrair novos alunos.
Este é um caminho. Apoiar os alunos que escolhem estudar numa escola de Seia. E este deveria ser o caminho das demais câmaras municipais: criar bolsas e financiar os alunos que venham estudar para escolas e universidades do interior.
Atualmente, praticamente todos os municípios da região pagam bolsas aos naturais do concelho que ingressam no ensino superior. Porém, este modelo rende votos, mas está ultrapassado: o jovem parte porque ingressa numa universidade do litoral, é apoiado pelo concelho de origem, mas não regressa à sua terra – o concelho financiou a formação do aluno, mas o território perdeu o futuro.
Os municípios devem apoiar e criar bolsas de estudo para os jovens que venham de outras regiões para as nossas escolas e universidade (e também para os alunos dos nossos concelhos que fiquem a estudar nas nossas escolas técnicas e universidades). Os alunos de hoje serão os profissionais que amanhã irão residir nas nossas vilas e cidades e irão contribuir para o desenvolvimento da nossa região. Quem parte, não volta…

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Luís Baptista-Martins

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