Vi a primeira jornada da Primeira Liga como se vê a primeira jornada da Primeira Liga: com aquela vontade genuína de que o primeiro jogo chegue depressa e com a televisão ligada mais tempo do que o razoável. Ao terceiro jogo já não estava a ver futebol. Estava a ler camisolas. Betano, Bwin, Le Bull, Solverde, GoldenPark, Placard, Betano outra vez. Ao quarto jogo comecei a fazer contas, o que nunca é bom sinal num sábado à tarde.
As contas dão isto. Dos dezoito clubes do principal escalão, dezasseis exibem uma casa de apostas na camisola desde que o Marítimo, este mês, trocou a cerveja Coral pela Bwin. Escapam o Nacional e o Académico de Viseu. O Benfica é meio caso à parte, com a Emirates à frente e a Betano na manga, o que resolve a estética e não resolve o resto.
Depois há o resto, que já nem se nota de tanto estar à vista. A competição chama‑se Liga Portugal Betclic. A terceira divisão chama‑se Liga 3 Placard. A Supertaça, que tem o nome de Cândido de Oliveira, tem agora também o da Placard, o que dá uma designação com a extensão de uma morada fiscal. O futsal joga a Liga Placard. O hóquei em patins joga o Campeonato Placard. O basquetebol e o andebol jogam à Betclic. E quando o jogo acaba e se procura um podcast para ouvir na segunda‑feira, os melhores humoristas portugueses estão sentados em estúdios pagos pela bwin, pela Betclic ou pela Solverde, a fazer graça sobre o fim de semana. Se ainda assim sobrar tempo, as marcas esperam-nos no Rock in Rio, no NOS Alive e no Kalorama, que é onde estão os jovens.
E é dos jovens que se trata, no fim de contas. Segundo o inquérito europeu ESPAD relativo a 2024, 64% dos estudantes portugueses de quinze e dezasseis anos admitiram ter apostado dinheiro em desporto no último ano. A média europeia é de 55%. Estamos acima da Europa exatamente na categoria que o nosso futebol publicita todas as semanas, e ninguém parece achar que as duas coisas se falem.
Convém dizer o que isto não é. Não estou a dizer que apostar é doença, nem que quem faz o boletim ao domingo está a caminho da desgraça. Apostar é legal, a maior parte das pessoas aposta cinco euros e esquece‑se, e o Estado tem todo o direito de tributar isso. O problema é outro, e é mais estreito: é a saturação. É um produto que produz dependência numa minoria significativa e que, em Portugal, ocupou todos os sítios onde essa minoria vai buscar prazer. As camisolas, o nome da liga, o troféu, o podcast, o festival. Não há caminho de saída dentro do próprio campo.
O Público publicou em março os testemunhos de dois jovens em recuperação. Um deles, que começou a apostar aos dezassete anos com os amigos, chegou a jogar das nove da noite às nove da manhã e a perder cinco mil euros em menos de uma hora. Chegou a ter mais de cinquenta contas em casas de apostas. A outra tem hoje uma dívida de quarenta mil euros e descreve os primeiros meses sem jogar como abstinência de droga, com insónia e dores no corpo. São dois nomes falsos numa reportagem, e por isso é fácil lê‑los como se fossem personagens. Não são. São pessoas que, se quiserem ver um jogo do seu clube, terão de o ver com a marca da sua ruína estampada no peito de onze jogadores.
O que torna isto particularmente português é que o resto da Europa já resolveu, ou pelo menos tentou. A Itália proibiu toda a publicidade ao jogo em 2019, com o Decreto Dignità. A Espanha obrigou os clubes das duas primeiras divisões a romper os contratos em 2021. A Inglaterra proibiu marcas de jogo na frente da camisola a partir desta época, e vários clubes começaram o campeonato com o espaço em branco, o que é uma imagem muito mais eloquente do que qualquer campanha. Portugal foi o único que olhou para tudo isto, tomou nota, e acelerou.
E aqui chegamos à parte que devia envergonhar mais gente do que envergonha. A Placard, que dá nome à Liga 3, à Supertaça, ao campeonato de futsal e ao de hóquei em patins, é a marca de apostas dos Jogos Santa Casa. Ou seja, do Estado. O mesmo Estado que financia campanhas de sensibilização sobre jogo responsável, que paga as consultas das setecentas pessoas que hoje estão em acompanhamento no Serviço Nacional de Saúde por causa disto, e que se compromete solenemente a proteger os menores da publicidade ao jogo, é também o Estado que entrega ao vencedor da Supertaça um troféu com o nome de uma casa de apostas gravado ao lado do de Cândido de Oliveira. Parte do orçamento das federações desportivas vem do dinheiro que os portugueses perdem a apostar. Não é um conflito de interesses. É um interesse com duas moradas.
Fico à espera do dia em que a campanha de jogo responsável passar no intervalo do jogo, entre o anúncio da casa de apostas que patrocina a transmissão e a repetição do golo marcado por um jogador com a mesma marca ao peito. Vai passar, com aquela voz calma que dizem ser própria da prevenção, a lembrar‑nos que devemos jogar com moderação. Depois volta o jogo. E o Estado, que pagou os trinta segundos, cobra os noventa minutos.
Sugestões deste mês:
FIADA – Feira Internacional de Artesanato, Design e Artes – 3 a 6 de setembro
Bienal Internacional de Artes e Ofícios – 4 e 5 de setembro
Feira Farta – 18 e 20 de setembro
Docs de apoio:
Ferreira, A. B. (2026, 12 de março). Em Portugal, há 4,9 milhões de contas activas no jogo e apostas online. Público.
Carvalho Ferreira, R. (2026, 12 de agosto). Portugal em contramão: casas de apostas dominam camisolas dos clubes portugueses enquanto a Europa fecha a porta. SIC Notícias.
Cabine Desportiva (2026, 3 de agosto). Empresas de apostas dominam patrocínios no desporto português: dos clubes às ligas e federações.
ESPAD — European School Survey Project on Alcohol and Other Drugs, relatório relativo a 2024.
setembro, 2026
Romeu Curto



