Sociedade

«“Trocava”, de bom grado, a Secretaria de Estado pela instalação na Guarda do Instituto da Segurança Social»

Escrito por Jornal O Interior

Na sua primeira entrevista após tomar posse como eurodeputado, Álvaro Amaro desvaloriza a vinda da Secretaria de Estado da Ação Social para a Guarda e avisa os socialistas que os guardenses «sabem distinguir bem o que são ações concretas, que têm a ver com a vida das pessoas, ou meras ações de cosmética que venham por aí». Já aos sociais-democratas deixa o recado: «As derrotas não são irreversíveis» desde que haja mobilização «de todos». O ex-presidente da Câmara da Guarda também não está preocupado com a demissão de José Amaral Lopes da coordenação da candidatura da Guarda a Capital Europeia da Cultura em 2027, que diz ser para afirmar a Guarda como Capital.

P – Está nas comissões parlamentares da Política Agrícola e da Coesão. O que tem feito no Parlamento Europeu? Como tem sido a sua vida política em Bruxelas?
R – Sou membro efetivo na Comissão da Agricultura e do Desenvolvimento Rural e membro suplente na Comissão do Desenvolvimento Regional. Para ser totalmente franco, não imaginava tanta atividade logo de início, quando ainda se está a formar o Colégio de Comissários e se discute tanto o Brexit. A verdade é que, ainda assim, tem havido muitas outras matérias a debater. E no caso das “minhas” duas Comissões há dois temas marcantes e que me entusiasmam bastante: a Reforma da Política Agrícola Comum e o novo Quadro Financeiro Plurianual, ou seja, os montantes de fundos comunitários para os próximos anos.

P – Sucintamente, qual é a sua avaliação dos resultados do PSD nas legislativas a nível nacional? E na Guarda? Também acompanha Carlos Peixoto nas críticas a um partido «contravapor» no distrito?
R – A minha avaliação dos resultados do PSD nas últimas eleições coincide em absoluto com a leitura de Rui Rio. O PSD não atingiu o seu objetivo, que é sempre o de ganhar, mas não teve a derrota estrondosa que se vaticinava aqui e ali. Na Guarda também não venceu, ainda que tenha ficado bem acima da média nacional. Tenho a certeza que desde o presidente da Distrital, a todos os seus membros, ficou esse sentimento. Em democracia, nem as vitórias são eternas, nem as derrotas são irreversíveis. Se todos os militantes estiverem mobilizados tenho a certeza que o PSD ganhará as próximas eleições, até porque sou dos que não acredita que este ciclo político chegue ao fim da legislatura.

P – No pressuposto que será apoiante de Rui Rio, como vê a atual disputa para a liderança do PSD? E vai participar ativamente na campanha interna?
R – É um pressuposto naturalmente correto. Serei, tal como já fui, um apoiante convicto de Rui Rio. Vejo a atual disputa como um ato normal da riqueza interna de um partido com vocação de poder, como sempre foi e será o PSD. Participarei na campanha eleitoral interna na medida das minhas possibilidades em função do meu trabalho, a maior parte do qual fora do país. Uma coisa eu tenho como certa: o PSD sairá mais forte deste debate interno e que terminará com as eleições diretas. O que importa é o que sempre tenho dito, ou seja, as pugnas eleitorais devem terminar na noite das eleições. Como foi notório, não foi isso que aconteceu no PSD neste último ano e meio. Acredito sinceramente que o PSD sairá desta disputa interna muito mais forte. A sua história diz isso mesmo.

P – O PS, ao instalar uma secretaria de Estado na Guarda e também outros serviços públicos prometidos, está a apostar na reconquista da Câmara. O PSD deve começar a preocupar-se com as opções de descentralização que também têm esse objetivo político?
R – Se, com essas decisões, o PS está a apostar na reconquista da Câmara da Guarda, é um ato normal em democracia. Ao PSD cabe valorizar o património político conquistado e assim ganhar as eleições. É também um ato normal. Quanto mais conquistas houver para a Guarda, seja por decisões de descentralização ou quaisquer outras, tanto melhor para a Guarda. Mas a população sabe distinguir bem o que são ações concretas, que têm a ver com a vida das pessoas, ou meras ações de cosmética que venham por aí.

«Todos sabemos que experiências deste tipo – instalar Secretarias de Estado em várias cidades do país – não deram quaisquer resultados.»

P – Ficou preocupado com a demissão de José Amaral Lopes da coordenação da candidatura da Guarda a Capital Europeia da Cultura? Perdeu-se uma peça-chave do projeto?
R – A candidatura da Guarda a Capital Europeia da Cultura é seguramente dos projetos mais mobilizadores das últimas décadas. Qualquer que seja o resultado final, é um projeto que ajuda, e muito, a afirmar a Guarda como Capital. Recordo o que disse em 2013 na minha primeira candidatura. Sempre disse que a Guarda tinha de se afirmar como uma capital da sub-região. E aí está! Todos devemos ter um grande orgulho nisso, independentemente das opções políticas de cada um. O Dr. Amaral Lopes deu o seu contributo. Aqui, como em todas as circunstâncias, não há insubstituíveis.

P – O que não conseguiu concretizar no seu mandato e meio na Câmara da Guarda? Porquê?
R – Não consegui concretizar muita coisa e na verdade nem podia. O tempo é uma variável fundamental, na política como na vida. Mas não resisto a dar-lhe um exemplo. Podia dar mais, mas um emblemático e de necessidade absoluta: o Centro de Exposições Transfronteiriço, mas sempre de uso múltiplo, ou seja, com a vertente da prática desportiva.

P – A escolha de Ana Abrunhosa para ministra da Coesão é um bom sinal? O que espera deste ministério e da ministra?
R – A professora Ana Abrunhosa é uma profunda conhecedora das matérias referentes à Coesão. Nessa medida é uma boa escolha. Quanto ao sinal político do primeiro-ministro, temos de esperar para ver. Vamos acompanhar, por exemplo, o que é, em substância, um Ministério do Planeamento e um Ministério da Coesão. Como o Governo é tão grande, estas duas “pastas” assentavam bem num só ministério.

P – E da nomeação de Ana Mendes Godinho, deputada eleita pela Guarda, para ministra do Trabalho e Segurança Social?
R – A nomeação da Drª Ana Mendes Godinho não me merece qualquer comentário a não ser o facto de ter sido cabeça de lista pela Guarda e desejar que lhe tenha ficado no coração, pelo menos, um pouco da Guarda. E se assim for, tendo de olhar para o país, não deixará de pôr a Guarda à frente. É o que desejo.

P – Quanto à escolha de Rita da Cunha Mendes para a secretaria de Estado que deverá ficar na Guarda?
R – Em coerência também não tenho de comentar a escolha da Drª Rita da Cunha Mendes. Ainda assim e neste caso concreto, sublinho que sempre entendi que devemos ter orgulho quando os filhos da terra ocupam lugares de tanta responsabilidade. Nesse sentido, a Guarda deve sentir esse orgulho. Já quanto à questão da Secretaria de Estado ser instalada na Guarda, não vejo nisso nenhum “ganho de causa”. Sempre disse que o Governo deve estar em Lisboa. A Administração deve estar desconcentrada e até descentralizada. Quero dizer com isto que “trocava” de bom grado a Secretaria de Estado da Ação Social pela instalação na Guarda, por exemplo, do Instituto da Segurança Social, que só em Lisboa emprega mais de mil pessoas. Isso sim era contribuir para que a Guarda tivesse mais gente. Quero sublinhar que defendo isto há muito tempo e de resto está muito claro no manifesto do Movimento pelo Interior. Não é, pois, por qualquer atitude de combate político. Todos sabemos que experiências deste tipo – instalar Secretarias de Estado em várias cidades do país – não deram quaisquer resultados.

P – Enquanto fundador do Movimento pelo Interior, qual o comentário que lhe merecem as declarações do primeiro-ministro sobre a coesão territorial do país? Acha que este será o momento para mudar o paradigma da interioridade? Passa pela criação de um ministério da Coesão Territorial?
R – Como já disse a criação do Ministério da Coesão Territorial só por si significa muito pouco, independentemente, neste caso concreto, de ser ocupado por alguém que conhece muito bem essa problemática. Veremos agora a ação concreta e a força política que terá para levar por diante muitas medidas políticas que tardam em Portugal. Já perdemos tempo demais. E não vale a pena atirar as culpas, são de todos. Daí que aguardo sempre pela coragem política de um qualquer Governo para alterar o paradigma. Se for este, cá estarei para reconhecer isso mesmo. É sabido que há muito defendo, e apelo, para essa coragem de pensar o país de modo diferente. E isso para mim não tem cor política. Na oposição também se pode desempenhar um papel relevante, como aliás Rui Rio tem dito com muita frequência. Haja finalmente um “Pacto da Coesão”, de preferência aprovado por unanimidade na Assembleia da República.

P – A Associação Nacional de Municípios defendeu na sua última reunião a implementação da regionalização após referendo (Manuel Machado afirmou no final de reunião do Conselho Diretivo que «está na hora de ultrapassar o tabu da regionalização»), qual é a opinião de Álvaro Amaro?
R – Naturalmente que concordo em absoluto. Recordo que assinei, em nome do PSD, um acordo com o anterior Governo para que se estudasse o nível Sub-Nacional do Estado. O relatório está feito e as personalidades que o elaboraram dão as garantias de qualidade que se exige a uma reforma deste tipo. Portugal está transformado num dos países mais centralizados da Europa.
E isso só nos retira capacidade reivindicativa e, ainda mais grave, torna-nos num país muito injusto. Não há que ter medo da Regionalização e de maneira nenhuma acarretará mais despesa pública. Isso é totalmente demagógico.

P – Depois do mandato no Parlamento Europeu tem intenção de voltar à politica nacional ou vai andar por aí…?
R – O meu mandato no Parlamento Europeu tem a ver com a minha atividade na política local e nacional. E nesse sentido nunca deixarei de andar por aí!!

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