Sociedade

Família desalojada por incêndio na Guarda-Gare continua sem casa

Escrito por Sofia Craveiro

Duas semanas após o incêndio no Bairro Nossa Senhora de Fátima, na Guarda-Gare – que destruiu por completo duas habitações – os antigos moradores continuam à espera de um teto. Ilda Monteiro, uma das desalojadas, afirma não «ter respostas de ninguém». Autarquia alega que «todo o esforço está a ser feito» para encontrar soluções.

Muito ficou por resolver desde a manhã de 8 de janeiro. Nesse dia surgia a notícia de um incêndio que deflagrou no Bairro Nossa Senhora dos Remédios, na Guarda-Gare. «Três habitações foram afetadas pelas chamas, das quais duas ficaram totalmente destruídas e uma inabitável devido à água das mangueiras», adiantava na altura Marco Lucas, adjunto de comando dos bombeiros da Guarda. Do incidente não resultaram feridos, mas os danos materiais foram devastadores. Nove pessoas ficaram desalojadas, incluindo-se no grupo uma família de sete membros, dos quais cinco são menores, com idades entre os oito e 17 anos.

Duas semanas volvidas, Ilda Monteiro, a mãe das crianças, relata que ainda não conseguiu uma habitação para a sua família. «Já estive em várias agências imobiliárias aqui na Guarda e ninguém me aluga casa», lamenta. «As pessoas veem que sou cigana e não me querem arrendar», acusa a antiga moradora, que esteve a residir temporariamente em casa do irmão. «Ficámos os sete a dormir no T2 dele, mas ele tem também uma ordem de despejo e fomos forçados a sair», acrescenta Ilda Monteiro.

O sustento da família provém, essencialmente, do Rendimento de Inserção Social, do qual Ilda é beneficiária, e da pensão do marido Cândido Gomes, que é reformado por invalidez, na sequência de um acidente de mota que o deixou com sequelas para a vida. Durante o incêndio – que terá sido originado por um curto-circuito, segundo os moradores – todos os pertences da família foram consumidos pelas chamas, tal como a casa pela qual pagavam 170 euros de renda mensal. A exceção foi um conjunto de objetos que estava armazenado num pequeno barracão anexo, que não foi alcançado pelas chamas.

Todos os bens que o casal possui neste momento estão guardados no barracão anexo à casa ardida, local onde o casal afirma estar a viver.

Alguns electrodomésticos, pequenas mobílias, utensílios, brinquedos e cobertores então entre a lista de bens que a família neste momento possui e que guarda no barracão onde afirma estar a viver. «Desde sexta-feira [17 janeiro] que tivemos de vir dormir para aqui», lamentam Ilda Monteiro e o marido, enquanto mostram a cama improvisada a um canto do barracão, construído maioritariamente com chapas de alumínio. A outra alternativa para pernoitar foi montada na carrinha “pick-up”, estacionada junto à arrecadação, onde estão agora colocados cobertores e mantas. «A Câmara pensa que o que queremos é uma casa de borla, mas não. Não quero que ninguém me dê uma casa, quero apenas que alguém aceite alugar-me uma»,

«Desde sexta-feira [17 janeiro] que tivemos de vir dormir para aqui», lamentam Ilda Monteiro e o marido

sublinha Ilda Monteiro, que, apesar de relatar ter sido acompanhada por um técnico da Segurança Social e pelo serviço de Ação Social da autarquia no dia do incêndio, afirma que não obteve «respostas de ninguém» desde então.

 

O INTERIOR contactou a Segurança Social sobre o processo entretanto aberto, mas não conseguiu obter resposta em tempo útil.

Falta de habitações para arrendar dificulta realojamento da família

Uma das dificuldades do casal está na procura de casa para arrendar na Guarda, uma cidade sem oferta de habitações para aluguer neste momento. O INTERIOR contactou diversas agências imobiliárias relativamente a este caso e questionou ainda a disponibilidade de casas para alugar na cidade. A resposta foi comum: «Não guardamos registo de todos os telefonemas, pelo que não podemos garantir que esse contacto tenha sido feito, mas de qualquer forma neste momento não temos qualquer casa disponível para aluguer na Guarda, apenas para venda».

Apesar da falta de oferta de habitações para arrendamento, a Câmara Municipal dispõe de edifícios próprios para apoio social, mas também estes estão completamente lotados, segundo a vereadora com o pelouro da Ação Social, Lucília Monteiro. «O município não tem casas vagas para atribuição imediata. A lista de espera é enorme e todo o esforço está a ser feito para se encontrar uma solução que permita dar resposta a esta necessidade social», explica a autarca. «No dia do incêndio, um técnico da autarquia acompanhou toda a situação no local, juntamente com técnicos da Segurança Social» e foi entregue «algum vestuário e roupa de cama» ao casal, acrescenta a responsável. Nesta altura, a família foi também informada de que deveria dirigir-se à Câmara e fazer a inscrição para atribuição de uma habitação social, «como estipulado no Regulamento Municipal de Atribuição de Habitação Social». Este procedimento foi cumprido, mas relativamente ao auxílio para encontrar casa para alugar, «o município pode colaborar na procura, prestar informações e dar referências, mas não possui nenhum programa de apoio ao arrendamento», explica Lucília Monteiro.O município refere ainda que o casal é «proprietário de uma casa no Casal da Serra», mas Ilda Monteiro contesta e afirma que «vendi essa casa há cerca de um ano, a um primo. Se ainda a tivesse podia ir para lá, não precisava de ajuda da Câmara», desabafa.

Desde o incêndio, o casal tem sido auxiliado por vizinhos que oferecem roupa, comida e brinquedos às crianças. Luís Martins, morador do Bairro Nossa Senhora dos Remédios, ajuda regularmente a família e já doou bens por diversas vezes, algo que afirma ser uma prática de muitos dos residentes: «Acho muito mal eles não terem ainda uma resposta, pois não foram eles que quiseram esta situação», lamenta.

Sofia Craveiro

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