Sociedade

Esculpir o imaginário em pedaços de couro

Escrito por Sofia Craveiro

A mãe era modista e o pai latoeiro. Entre o atelier e a oficina surgiu a inspiração para escolher o seu material de eleição. Trabalhar o couro e dar-lhe formas limitadas apenas pela imaginação tornou-se a arte de Gabriel AV, o artista plástico covilhanense que idealiza figuras místicas e cria trajes à medida da fantasia pretendida.

Entrar no atelier de Gabriel AV, na Vila do Carvalho (Covilhã), é como aceder a «um cenário pós-apocalíptico», segundo o próprio. Os pedaços de couro, restos de tecido, fragmentos de metal e pedras dominam o espaço que denuncia a criação desenfreada, levada a cabo de forma frenética e minuciosa. «O caos que fica mostra bem a intensidade com que o trabalho foi vivido. É isso que o meu atelier revela após tudo ter acabado», relata o artista.
Gabriel AV é artesão e artista plástico. Trabalhou profissionalmente em diversas atividades, mas foi há oito anos, quando regressou à Covilhã, que passou a dedicar-se à sua arte a tempo inteiro. Antes, andou «pelo país, estudei em Lisboa, Paris e vivi na Síria», de onde foi forçado a sair devido à guerra. Gabriel AV – o único nome pelo qual se identifica – tem as artes plásticas como formação de base, mas também estudou filosofia, «pois a arte tem de ter forma, mas também conteúdo», considera. O artesão fabrica de forma manual trajes em couro, nos quais aplica peças de metal ou madeira para adicionar pormenor. São figuras mitológicas, soldados, anjos e criaturas fantásticas que tomam forma através das peças de “vestuário” e adereços que projeta, desenha e concretiza de forma totalmente autónoma. Excluindo o tempo que leva a pensar e conceber cada figura, Gabriel AV estima que, para executar um traje de fantasia, demore «cerca de duas semanas, durante as quais trabalho todos os dias até à exaustão».
A técnica que utiliza para dar forma e rigidez às peças em couro surgiu por acaso, num dia em que a falta de sucesso no trabalho o deixou frustrado. Não conseguindo trabalhar o material como pretendia, atirou com o pedaço de cabedal para o chão, vertendo sumo de laranja sobre ele. «Como estávamos no Verão, no dia seguinte o pedaço de couro – que passou largas horas ao sol – tinha solidificado na forma com que o deixara e assim percebi que tinha encontrado um ponto de partida para conseguir moldá-lo permanentemente», recorda o artesão. A técnica foi aperfeiçoada e hoje Gabriel AV usa água e calor (para molhar e secar a pele), de forma a esculpi-la conforme pretende. A criação e manipulação de materiais sempre esteve presente na sua vida. «O meu pai era latoeiro, um artesão que fazia vários tipos de utilitários, numa altura em que não havia plásticos banalizados. Já a minha mãe era modista. Em criança eu brincava entre a oficina do meu pai e o atelier da minha mãe e acabei por reter técnicas de ambos, por observação», conta Gabriel AV.

Peças variam dos 300 aos 6 mil euros

Ao crescer, foi a junção destas técnicas de trabalhar materiais distintos que o levou à transformação do couro, «uma matéria-prima que acaba por ser um intermédio entre a suavidade do tecido e a rigidez da chapa», explica. A sua grande ocupação atual é a “Mysteria – Mercado Encantado”, que se realiza bianualmente na Vila do Carvalho. Para este evento o artista idealiza e executa as personagens que contam a história da feira mística a cada edição, intervindo ainda em todos os processos criativos do evento. O preço de cada peça «não depende tanto do tipo de material, mas sim do trabalho que este exigiu». Assim uma «armadura simples, sem ornamentos, ronda os 300 euros», adianta Gabriel AV, enquanto um fato completo, «mais elaborado e pormenorizado com recurso a diversos materiais», pode chegar aos «seis mil euros».
Apesar do seu grande foco ser a criação destas personagens fantasiosas, o artista também trabalha por encomenda, «a pedido de amigos, cujo trabalho admiro». Estas peças únicas podem ter as mais variadas finalidades. «Uma peça que faça pode servir para um disfarce, pode ser um elemento de decoração, um adereço para um cenário fotográfico ou até uma fantasia erótica», declara o artesão. Esta última vertente do seu trabalho teve origem num passeio casual no Bairro Alto, em Lisboa, há alguns anos. Ao entrar numa loja de objetos eróticos, Gabriel explicou o seu ofício e foi convidado pela proprietária a executar peças em couro para ali serem vendidas. «Erotismo é sugerir tudo sem mostrar nada», e é essa a fantasia presente nos corpetes, máscaras e fatos que produz. «A arte pode servir o propósito que bem entendermos, tudo depende do contexto em que a inserimos», sublinha Gabriel AV.

Sofia Craveiro

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