Votar ou não votar

1. O Partido Socialista venceu inequivocamente umas eleições europeias em que a maioria dos portugueses escolheram não votar. Com uma taxa de abstenção de 69%, os eleitores não consideraram importante cumprir com a sua obrigação cívica. É verdade que a campanha, excessivamente nacionalizada e pouco promotora do debate sobre os assuntos europeus, não contribuiu para a maior participação, mas concluir que a culpa é toda da campanha, dos candidatos ou da comunicação social é desresponsabilizar os cidadãos, que preferem passar o ano a praguejar contra os políticos ou a escrever mal de tudo o que mexe nas redes sociais. Sendo certo que os partidos continuam a olhar para dentro e a não saber falar com as pessoas, mas com tantos candidatos e tantas opções é difícil aceitar que os milhões de portugueses que não votaram, que não têm curiosidade sobre os nomes dos candidatos ou sobre as propostas em discussão tenham o atrevimento de comentar que os eleitos foram sufragados por menos de um terço dos portugueses. A abstenção é alta por culpa de todos, mas também, e desde logo, porque os portugueses não olham para as eleições como um direito e um dever cívico. Votar em branco pode ser uma opção, mas não votar pura e simplesmente é inaceitável. Ao cidadão também têm de ser assacadas responsabilidades pela sua abstenção, a culpa não é só dos outros.

2. A União Europeia assegurou o maior período de paz e prosperidade na sua área geográfica desde os tempos medievais, talvez mesmo desde a “pax romana”, num continente que só na primeira metade do século XX foi o berço de duas guerras mundiais que o arrasaram com um custo de cerca de 100 milhões de mortes (claro que parte do sucesso teve a mão amiga da América, mas foi a integração europeia e os europeus que protagonizaram esta extraordinária aliança). A UE pode ser passível de todas as críticas, mas o facto objetivo é que até agora não se inventou nada melhor. Apesar disso, e das muitas transformações de Portugal desde a entrada na Europa, os portugueses continuam a não ligar muito à eleição dos seus eurodeputados. É verdade que o medo dos extremismos, que em outros países levou muita gente às urnas, não se coloca em Portugal, mas as conquistas etéreas, como a democracia ou a liberdade, precisam de ser constantemente alimentadas sobre o risco de serem postas em causa. Curiosamente, na Europa, quem cresceu não foram os populistas, mas sim os ecologistas.

3. O PS, não teve nestas eleições um resultado extraordinário, mas teve uma vitória clara com mais 11% do que o PSD, que foi o grande derrotado – aliás, sozinho, o PSD nunca antes tinha tido menos de 30% em eleições europeias e em Lisboa o PS teve o dobro dos votos do PSD. Apesar da vitória política de António Costa, a verdade é que teve menos votos do que a famosa vitória do “poucochinho” de António José Seguro. Mas os grandes derrotados foram claramente o PSD – foram Rui Rio, Paulo Rangel e Álvaro Amaro (que liderou o Movimento pelo Interior sem qualquer resultado mensurável, nem votos). Mas também o CDS, em especial Nuno Melo, correndo o risco de voltar a ser o partido do táxi.
Na região, sem surpresa, os socialistas dominaram, e nem a eleição de Álvaro Amaro contrariou o sentido de voto. Mas o mais relevante é que, depois de Miguel Viegas, do PCP, originário do concelho da Guarda e que foi eurodeputado até agora, o distrito da Guarda elege pela primeira vez dois deputados entre os 21 que irão representar Portugal no Parlamento Europeu: Álvaro Amaro (PSD) e Sandra Pereira, número dois da lista da CDU e natural de Alvoco da Serra (Seia).

Sobre o autor

Luís Baptista-Martins

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