Ordem!

1. A greve dos motoristas de matérias perigosas, no momento em que escrevo estas linhas, é uma greve de nervos, mas que fica muito aquém da vontade reivindicativa do sindicato. Anunciada há muito tempo, as consequências desta mobilização foram devidamente reduzidas pelo Governo, que recorreu à “requisição civil” para impor a ordem e repor o serviço de distribuição de combustíveis. Para o Governo, os motoristas não cumpriram com os serviços mínimos e avançou com a medida para repor a “ordem”. Os “serviços mínimos” têm sido “serviços máximos”, pelo menos na opinião dos sindicatos, e a capacidade de reivindicação dos trabalhadores deu lugar à importância das consequências na economia nacional – se na semana santa a paragem dos motoristas de combustíveis parou o país, desta vez provocou alarme social e muitos nervos, mas com razoável tranquilidade tudo foi sendo resolvido.
Estranhamente, as razões para a greve foram completamente desvalorizadas pela sociedade e em especial pelos partidos de esquerda – o BE calou-se e ao PCP até deu muito jeito que um sindicato independente que não controla (como faz na CGTP) fosse pisado pelo Governo. A direita desapareceu, com o CDS e o PSD a não terem nada para dizer. E o PS mostrou-se unido à volta da forma musculada como o Governo apoiou a ANTRAM, açoitou os sindicatos e impediu que a greve tivesse algum tipo de sucesso (a requisição civil foi decretada 18 horas depois de iniciada a greve) – forte com os fracos e fraco com os fortes: é fácil dominar os motoristas que trabalham dezenas de horas por semana e dormem dentro dos camiões à beira da estrada. Na prática, o Governo impôs a ordem, que é aquilo que os portugueses mais apreciam. O país dos brandos costumes prefere sempre uma liderança forte, opressora e inibidora de veleidades libertárias. Foi assim que Salazar chegou ao poder, garantindo a ordem. E é assim que Costa vai subindo nas sondagens – a maioria fica mais perto com o silenciamento da direita (habitual titular da ordem e do “respeitinho”) e o aniquilamento dos grevistas. Mas uma coisa é certa: o descontentamento dos motoristas pode agora ser silenciado pela coação do poder, mas vai voltar, sem aviso prévio.

2. Há muito anunciado, passou segunda-feira a ser oficial com a publicação pelo CNE do mapa de distribuição dos deputados: os distritos da Guarda e Viseu vão perder deputados para Lisboa e Porto. O distrito da Guarda perdeu 12 mil eleitores entre 2015 e 2019; o distrito de Viseu perdeu 24 mil eleitores entre 2015 e este ano. A Guarda, que nas últimas eleições legislativas elegia quatro deputados (no último sufrágio dois deputados para o PSD e dois para o PS) vai eleger três nas próximas eleições.
Os partidos “nacionalizaram” os deputados. O deputado eleito por cada distrito passou a ser deputado da Nação, de «acordo com a lei». Os partidos fazem a sua gestão das listas e até impõem “paraquedistas” nas listas distritais. Como é óbvio, o distanciamento da realidade e o distanciamento emotivo de deputados sem ligação afetiva e emotiva aos respetivos distritos aumentam a distância sobre os problemas e sobre o empenho em relação às populações que representam. Por outro lado, essa nacionalização leva a que a disciplina partidária ganhe sempre aos interesses locais. Todos recordamos o deputado “limiano”, quando Daniel Campelo, do CDS, apoiou o Governo de António Guterres após ter negociado um pacote de vantagens para Ponte de Lima e para o distrito de Viana do Castelo. E todos recordamos como os deputados do PSD da região, nomeadamente Ângela Guerra e Carlos Peixoto, votaram contra a abolição das portagens nas A23 e A25 de acordo com a decisão nacional do PSD, mas prejudicando gravemente a população que os elegeu. Por isso, para termos deputados assim, é igual ter um ou três ou quatro! Para ter deputados que, entre a população que os elege e o partido ou a sua carreira política, escolhem votar com o chefe, então não precisamos de deputados. O sistema eleitoral tem mesmo de ser reformado. Atualmente, vota-se para eleger o primeiro-ministro e por arrasto elegem-se os deputados de cada distrito. Precisamos de ter listas uninominais para a eleição dos deputados de cada distrito e listas para a eleição do governo. Com o atual sistema é igual votar ou ficarmos em casa. O nosso voto não vale nada, porque os nossos deputados não representam os eleitores, representam o partido!

Sobre o autor

Luís Baptista-Martins

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