Não deixar desaparecer um hospital

Escrito por Carlos Cortes

A Unidade Local de Saúde (ULS) da Guarda dá resposta em cuidados de saúde a perto de 144.000 habitantes. Só este número justifica a necessidade de um hospital. O distrito da Guarda é extenso, possui um índice populacional baixo mas disperso, uma faixa etária envelhecida (um terço da população tem mais de 65 anos) e uma orografia muito montanhosa que dificulta a implementação de vias de comunicação eficientes. A interioridade, as dificuldades nos transportes, as vias de acesso agravam a capacidade de deslocação das pessoas que precisam de ter uma unidade hospitalar a um tempo razoável da sua residência.
A ULS da Guarda atende anualmente mais de 105.000 doentes no serviço de Urgência (288 por dia), com tendência para aumentar. São internados mais de 9.200 doentes todos os anos. São feitas mais de 8.200 cirurgias e realizadas 134.000 consultas (530 por dia). Estes dados de atividade clínica demonstram e justificam, por si, a existência do Hospital e a necessidade de aprofundar a sua oferta em cuidados de saúde.
Infelizmente tem 3,27 médicos por 1.000 habitantes, quando a média nacional é superior a 5 médicos por 1.000 habitantes, segundo as estatísticas do INE de 2017.
No dia 19 de outubro juntaram-se, na sede da Ordem dos Médicos da Guarda, os diretores de serviço do hospital e seus representantes, responsáveis da Saúde Pública, de comissões de apoio na área da ética e da formação médica. Esta iniciativa foi muito importante: juntar todos os serviços em prol da qualidade dos cuidados de saúde e na defesa do Hospital da Guarda, que tem sido desprezado pela tutela ao longo dos anos, votado ao ostracismo, o que prejudica os doentes do distrito.
A irresponsabilidade, com incompetência à mistura, e uma vontade inconfessada de acabar com esta unidade de saúde são, pois, evidentes. Os ingredientes já estão “à vista”: ausência de incentivos para a colocação de profissionais de saúde, facilidade incompreensível de outras unidades hospitalares aliciarem e contratarem os profissionais da Guarda perante a total passividade da Administração Regional de Saúde do Centro e do Ministério da Saúde em impedir a saída sistemática de profissionais. Acrescente-se ainda o facto do investimento financeiro ser uma miragem.
Há dias referi que o Ministro da Saúde nem saberia onde está localizada a Guarda. Acabou por fazer uma visita apressada e regada de promessas de investimento. Dois dias depois foi demitido do Governo. Seria muito importante sabermos se a intenção da atual Ministra da Saúde, Marta Temido, é a mesma dos seus antecessores.
Os habitantes da Guarda não podem ter cuidados de saúde “de segunda”. O notório empenho e profissionalismo incontestável dos profissionais de saúde orgulham a ULS. Porém, enquanto não existir um plano concreto e diferenciado para valorizar o hospital, esta unidade de saúde estará sempre com uma espada de Dâmocles pendurada até a corda partir de podre.
Os médicos, os enfermeiros, os auxiliares, os administrativos, os técnicos – e sobretudo os habitantes da Guarda – merecem uma Saúde tal como o resto do país merece.

* Presidente da Secção Regional do Centro da Ordem dos Médicos

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Carlos Cortes

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