Da normalização dos “Emplastros”

Escrito por Fidélia Pissarra

Fernando veio do Norte, presumo. Do que me lembro, terá começado a sua “carreira” a correr atrás dos repórteres que, precisamente, reportavam o quotidiano do FCP. O que, por si só, mais do que alguma presença de espírito revela sagacidade no homem. Tivesse ele escolhido andar atrás dos repórteres de uma qualquer feira do livro e, com sorte (nossa, evidentemente), só o veríamos de ano a ano na televisão.
Não sei quem terá nascido primeiro, se o emplastro Fernando do Norte, que costuma ser simultaneamente adepto do FCP e dos seus adversários, se os outros emplastros todos a quem não vem prurido ao mundo por serem, em diferido, apoiantes da República e da Monarquia. Dadas as muitas semelhanças, acho bem provável que tenham nascido no mesmo dia e aquilo mais não seja que caraterística do seu signo astrológico, porque mesmo não acreditando em coincidências que as há, há. Só assim se compreende que tanto o Fernando, como os seus congéneres da política tenham a mesma obsessão por aparecer nas imagens televisivas. É como se aquilo fosse a sua missão de vida, o compor o friso de trás no cenário destinado aos protagonistas de qualquer coisa. Fossem todos os líderes políticos, empresários, artistas em voga, enfim VIP’s de qualquer maneira ou feitio, tão perenes como os do PC e do FCP que em vez de um Fernando teríamos uma miríade deles. Por isso, ainda bem que dar tempo a que todos os emplastros políticos se petrifiquem nos palcos, ao contrário dos dois exemplos, nem sequer seja a regra.
Sem grandes sinais distintivos, menos estrábicos e menor corpo, os emplastros da política costumam socorrer-se dos fatos gravata para sobressair atrás dos que falam para um microfone. O que poderá levar a pensar que, provavelmente, se o Fernando Emplastro se vestisse sempre à James Bond, tal qual naquela sessão fotográfica, estaria já de deputado numa qualquer assembleia. Já que, à maioria deles, também nunca se ouviu palavra, por isso nem sabemos o que pensam ou de onde vêm. Também não lhe conhecemos obra, logo não sabemos o que fazem. Às vezes, ou na maioria das vezes, nem damos por eles logo à primeira, o certo é que acabam por persistente e propositadamente se nos tornar familiares.
Facto que, por preguiça, não nos ocorre questionar: de onde é que te conheço, és quem, fizeste o quê? Assim, ao abdicarmos do direito de mais tarde lhes cobrar o que quer que seja, nos tornamos nuns preguiçosos do escrutínio. Depois acabamos a aceitar com naturalidade as expetativas goradas, preferindo não insultar os emplastros políticos que nos lembrámos de eleger. Os que geralmente, mesmo não se chamando Fernando e terem mais gravatas do que ele, não passam de emplastros: gente sem história, além da de imagens televisivas em que tudo fazem por aparecer. Porque, indubitavelmente, a única batalha destes “políticos” emplastro resume-se, em exclusivo, ao acotovelamento por um ângulo mais favorável num ecrã. Normalmente, valendo-se apenas de uma gravata a condizer com a de quem orienta câmaras e microfone, isto é gente em quem se costuma por votar.

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Fidélia Pissarra

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