A nova geração

Estava escrito nas estrelas, «um dia destes a minha geração toma conta disto»! Repeti esta frase vezes sem conta. Deixei de o fazer para não parecer obtuso e patético. Havia quem não percebesse ou não quisesse perceber, mas o comentário ia muito para além de uma questão etária ou de mera mudança político-partidária – na verdade, na região, foram muitos os que, «da minha geração», foram «tomando conta disto» (Rui Ventura em Pinhel, Paulo Langrouva em Figueira de Castelo Rodrigo, Paulo Fernandes no Fundão, e mais recentemente, Carlos Ascensão em Celorico da Beira ou António Machado em Almeida). E outros foram candidatos contra estes (ou outros) e podiam ser eles a «tomar conta disto». É geracional. E é essencialmente uma nova forma de dirigir, decidir e de viver em prol da comunidade. A chegada ao poder – ao poder de decidir o futuro da comunidade – daqueles que têm uma mente desempoeirada, livre e aberta ao mundo, ao conhecimento e ao futuro: os que cresceram ou nasceram depois do 25 de Abril, os que não viveram o salazarismo, nem ficaram retidos na submissão salazarenta (que durou muito para além de Abril) ou na gritaria comunista (mesmo depois do 25 de novembro). Este é o tempo. O novo tempo! O tempo daqueles que aprenderam nas universidades e politécnicos, que têm mundo, que viajaram e aprenderam (como nos ensinou Pessoa, «Cultura não é ler muito, nem saber muito; é conhecer muito»). Este é o tempo «da minha geração», a «geração que está a tomar conta disto» e que vai fazer uma região melhor – na Guarda, foi preciso vir Álvaro Amaro, um profissional da política, que agora segue viagem (como anunciado) para o centro da Europa e a quem a Guarda fica a dever afirmação e palco (que elevam a autoestima mesmo que não mudem a substância das coisas), contas saneadas, cidade arrumada, capitalidade recuperada e novo élan para o futuro (ignóbil e torpemente, sem Álvaro Amaro talvez ainda estivéssemos amarrados ao passado funesto e aziago de Joaquim Valente e Virgílio Bento). Depois da mudança de regime, a expetativa agora é sobre a mudança de liderança. Chaves Monteiro tem dois anos para se afirmar, mas o caminho não anda para trás. Mesmo nas complexidades, esta é uma nova geração que saberá escolher. Cecília Amaro, Lucília Monteiro, Sérgio Costa e Vítor Amaral serão a retaguarda de uma cidade muito melhor e contribuirão decisivamente para uma Guarda com futuro. Este é o tempo de mudar, de dar passos certos rumo ao futuro. E a oposição tem a obrigação de ser parte ativa dessa metamorfose, renovando-se e afirmando ideias e projetos para o futuro (porque as cidades têm sempre de ser discutidas por todas as partes).
Nos anos setenta o poder local foi determinante para a mudança do país, do país real, daquele país sem infraestruturas, pobre e analfabeto. Um país onde a emigração era o único caminho, que recebeu os retornados como uma bênção que veio mudar a paisagem rural e onde os primeiros autarcas tiveram de fazer tudo. Um país que tinha de mudar, e mudou. Depois chegaram os milhões da Europa e houve quem aproveitasse, mas a região pouco aproveitou – ainda havia de facto muito para fazer, para melhorar as condições básicas de vida das pessoas, mas poucos foram os autarcas que, para além do básico, viram caminho e deram ilusão e futuro aos seus municípios, muitos continuaram a gerir os concelhos como a geração de autarcas dos anos setenta e oitenta, presos à sua pequena dimensão, sem mundo e sem mundividência, sem perspetiva e sem perceção do futuro, por isso chegámos onde chegámos… Faltou visão e estratégia. Faltaram ideias e capacidade. Precisamente o que a «minha geração» tem «para tomar conta disto». Assim esperemos, pelo nosso futuro!

Sobre o autor

Luís Baptista-Martins

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