Cara a Cara

«A União Europeia deve alavancar mais fundos comunitários para estes territórios»

Escrito por Jornal O Interior

P – Quais são as suas propostas para o interior quando assumir funções no Parlamento Europeu?
R – A nossa ideia para a Europa é um novo contrato social que corresponde, em boa medida, à forma como procurámos governar em Portugal nestes três anos com políticas para criar emprego, repor rendimentos, reduzir as desigualdades sociais ou territoriais, e ter contas certas. Achamos que isto é preciso porque a Europa, desde o euro e da desregulação laboral, afastou-se dos cidadãos, provocou desigualdades. Antes da crise financeira a Europa crescia, mas as desigualdades também cresciam. Achamos que é preciso regressar ao tempo do modelo social europeu, que se deve traduzir neste novo contrato social. As políticas da governação europeia devem estar orientadas para melhorar a vida das pessoas em coisas concretas. Por exemplo, destinámos cerca de 100 milhões de euros de fundos comunitários do Portugal 2020, que tutelei até há pouco tempo, ao investimento empresarial aqui no distrito, grande parte do qual atribuído no concelho da Guarda. Se olharmos para esses 100 milhões de euros e para o investimento na ferrovia com fundos comunitários, podemos demonstrar como a Europa pode estar ao serviço da coesão territorial e da criação de emprego. Há três anos a Europa dizia não ao aumento do salário mínimo porque ia agravar o desemprego e que as nossas contas não iam continuar em ordem se repuséssemos rendimentos. Este modelo era posto em causa e, em particular, pelos nossos adversários da direita nestas eleições, que defendiam a continuação da política de cortes. Ainda agora Passos Coelho voltou a dizer que Portugal precisava de mais cortes porque isto é tudo enganador. O PS tem um modelo diferente, que implementámos de forma diferente, com resultados concretos e políticas concretas também para o interior. O melhor exemplo é o da Linha da Beira Baixa, entre a Covilhã e a Guarda, troço que estava fechado há uma década e está agora em obra. Aqui não me podem acusar de só lançar obras porque esta empreitada é uma das maiores em execução na ferrovia.

P – É com fundos estruturais, com medidas fiscais ou outras, que se conseguirá desenvolver esta região?
R – Precisamos – e admito que é polémico – de ter cidades médias fortes no interior, como é o caso da Guarda, para conseguir polarizar o processo de desenvolvimento ao resto do território. Os fundos comunitários podem ter um papel muito importante, bem como programas de coesão social que são criadores de emprego, como o PARES, no âmbito do qual foram aprovados muitos equipamentos sociais. O desenvolvimento da rede de cuidados continuados é outro bom exemplo, tal como a diferenciação de ter projetos aprovados de investimento empresarial nestas regiões.

P – Defende medidas de exceção para os territórios de baixa densidade?
R – Defendo um processo de desenvolvimento planeado pela região tendo em conta a natureza do território. É possível e desejável que os fundos comunitários estejam ao serviço da tal estratégia para criar mais emprego e reduzir as desigualdades sociais e territoriais. Com a reprogramação do Portugal 2020 decidimos que dos 5.000 milhões de euros de investimento que aprovámos para as empresas portuguesas 1.700 milhões são para o interior.

P – É um pacote tipo “Plano Marshall” para o interior?
R – No nosso programa temos um grande plano de investimento para a Europa cuja matriz é a criação de emprego. Esse plano tem que ser promotor da convergência entre países da União Europeia, não pode ser só para aprovar investimentos muito competitivos no centro da Europa. Os recursos que possam ser alocados a Portugal desses fundos comunitários têm que ter essa capacidade de disseminar a criação de emprego e de oportunidades em todo o território nacional, e isso pode-se fazer com a ajuda da Europa.

P – Além dos planos de investimento que possam ser financiados pela Europa, também se fala muitas vezes da questão da discriminação positiva dos territórios de baixa densidade em termos fiscais, uma opção que a OCDE já contestou. Qual é a sua posição?
R – Nós defendemos a aproximação das bases fiscais dos Estados-membros e o combate à fraude e evasão fiscal, mas é perfeitamente possível em territórios muito deprimidos do ponto de vista económico e social que haja uma diferenciação – temporária, certamente – que permita cativar apoios aos investimentos. Mas, para o empresário que decide a localização do seu investimento, ser um incentivo fiscal ou financeiro do fundo comunitário pode contribuir do mesmo modo para a decisão.

P – Mas vai defender que haja uma majoração fiscal para estes territórios?
R – Essa majoração já foi praticada por este Governo que integrei até agora. Do lado da União Europeia devemos sobretudo alavancar mais fundos comunitários para estes territórios e é esse o caminho que apontamos no nosso programa.

P – Não receia que os atrasos do Plano Ferrovia 2020 e a não inclusão dos IC’s da Serra da Estrela no Plano Nacional de Investimentos 2030 lhe seja prejudicial nesta campanha?
R – Tenho muito orgulho no investimento ferroviário que fizemos na região. Pusemos em obra concreta uma linha que estava fechada há uma década, mas não só, está também para ser lançada a ligação entre a Linha do Norte e a Linha da Beira Alta. Tudo isto é competitividade para esta região e há também a perspetiva de se tentar captar um grande polo logístico para a Guarda por causa da concordância entre a Linha da Beira Alta e a Linha da Beira Baixa.

P – Já desistiu do projeto Aveiro-Mangualde?
R – Não. O Plano Nacional de Investimentos tem prevista a possibilidade da ligação entre Cacia e Mangualde, que é a primeira fase dessa nova linha. É verdade que a Europa reprovou esse projeto, por isso avançamos com a modernização da Linha da Beira Alta e com as concordâncias com a Linha do Norte e a Beira Baixa. São investimentos muito importantes para a criação e fixação de emprego nesta região. Este investimento entre a Covilhã e a Guarda é o meu melhor cartão de visita neste território porque andou muitos anos a ser prometido e a obra está agora a acontecer para reabrir a linha durante este ano ou no início de 2020.

P – O que diz às pessoas que têm que viajar na Linha da Beira Alta com atrasos por causa das obras, comboios que avariam e transbordo para autocarros?
R – Digo-lhes que estamos numa fase de obras, que há um horizonte de esperança para a melhoria da situação e para termos a linha a funcionar em condições no futuro.

P – Assume o compromisso de, independentemente do que for dito na Europa, defender a coesão social e territorial de um país a várias velocidades?
R – O melhor compromisso que posso apresentar é o trabalho que fiz na ferrovia e na reprogramação do Portugal 2020, que beneficia os territórios do interior.

P – Em 2009 o PS perdeu nas europeias. Quais são as suas expetativas para as eleições deste ano?
R – O nosso objetivo é ganhar de forma clara. Se a minha proposta política é fazer na Europa aquilo que fizemos bem em Portugal, confio que os portugueses, reconhecendo esse trabalho do Governo do PS, nos darão também uma boa vitória nas europeias.

P – A abstenção é um problema que se sente com mais acuidade nestas eleições. Também o preocupa?
R – Preocupa-nos muito. Já tivemos exemplos muito recentes em questões europeias importantes, como o “Brexit”, em que o facto dos jovens que defendiam a permanência na União Europeia não terem votado, no dia a seguir acordaram nesta desgraça da saída. Portanto, tudo o que puder ser feito – e o trabalho da comunicação social ajuda-nos – para ter cidadãos informados para que percebam que se escolherem não escolher, não votar, podem acontecer coisas que no dia seguinte nos surpreendam.

P – Falou do “Brexit”, não o preocupa este desmantelamento da União Europeia, com a Itália a querer sair também?
R – Naturalmente que nos preocupa, mas acreditamos que o projeto europeu deve ser defendido e até aprofundado. E só o conseguiremos entregando resultados às pessoas. Aquela ideia do contrato social para a Europa é regressar à governação para as pessoas. Durante 20 anos as pessoas não viram as suas vidas significativamente melhoradas pela ação das políticas europeias porque erámos, se calhar, demasiado tecnocráticos e seguimos determinados modelos económicos e técnicos que não resultavam. É preciso dar confiança às pessoas.

Perfil de Pedro Marques:

Cabeça de lista do PS às eleições europeias

Idade: 42 anos,

Naturalidade: Montijo

Profissão: Economista

Currículo: Foi membro da Junta de Freguesia de Afonsoeiro (Montijo), vereador da Câmara Municipal do Montijo, secretário de Estado da Segurança Social, deputado na Assembleia da República pelos distritos de Setúbal e depois por Portalegre, ministro do Planeamento e das Infraestruturas no atual Governo e agora candidato ao Parlamento Europeu. Além da política, trabalhou no setor privado.

Livro preferido: “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel García Márquez

Hobbies: Leitura e ténis.

Sobre o autor

Jornal O Interior

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1 comentário

  • Concordo plenamente. Portugal deve pedir mais fundos e estão garantidos com a desertificação que existe em dois terços do território, provocados pelos desgovernos socialistas. Depois, nós por cá logo os transferimos para queimar os milhões e milhões em Lisboa.