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Edição de 18-05-2017

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Arquivo: Edição de 16-02-2017

SECÇÃO: Opinião

Agora Digo Eu
Eutanásia

O movimento “Direito a Morrer com Dignidade” conseguiu o seu objetivo. Finalmente a eutanásia e o suicídio medicamente assistido vão ser discutidos e votados no Parlamento.
Com efeito, o Bloco de Esquerda e o Partido dos Animais e Natureza irão apresentar até ao final de junho projetos-lei para que este pertinente assunto venha para a ribalta, independentemente das posições de uma direita, filosoficamente limitada, misturada com as posições radicais de uma Igreja que continua a intitular-se dona e senhora da vida debitando para tanto “as suas verdades” que considera absolutas e universais.
Dizem por aí que a sociedade portuguesa não está preparada para discutir o assunto. Já argumentavam assim aquando do agendamento da interrupção voluntária da gravidez. Acerca do tema de hoje curiosamente existe um estudo conduzido pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa que dá conta que mais de 60% dos portugueses são favoráveis à prática da eutanásia.
O ato de tirar a vida a alguém obriga-nos necessariamente a refletir, percebendo a diferença entre matar e deixar morrer, contando sempre com o princípio absoluto e inviolável da vida, entre o eterno argumento de viver com dignidade e morrer dignamente.
A discussão aí está centrando-se sobretudo na diferença entre matar e deixar morrer, assumindo inteira responsabilidade pela morte daqueles que matamos e pela morte daqueles que não conseguimos salvar, onde a ética deve estar presente tendo em conta a condição humana, na decisão pessoal, na escolha consciente do próprio e de forma voluntária, entrando aqui a moral, perguntando mesmo se é melhor ou pior tirar a vida a uma pessoa que solicitou conscientemente a eutanásia ou deixá-la morrer aos poucos, quando se sabe que cientificamente não tem qualquer possibilidade, restando-lhe apenas o sofrimento.
Esta é uma história verídica de um amigo muito próximo: portador de um adenocarcinoma cerebral com metástases, tentou tudo numa luta que veio a revelar-se inglória. Na última fase da vida foi internado no Hospital Universitário de Coimbra. Fui visitá-lo. Estava em permanente convulsão, com dores incalculáveis que só os cuidados paliativos conseguiam minimamente atenuar, injetando num braço morfina quanto baste, para, no outro, ter a correr um cateter para a veia com um soro que lhe prolongava a vida… Fiquemos por aqui.
Este assunto não é político. Não é da direita, do centro, da esquerda ou das igrejas. Tem apenas decisão política e depois é meu, é seu. Neste processo que, felizmente, já não terá retrocesso, irá aplicar-se finalmente o princípio “é proibido proibir”. E se por acaso acontecer uma situação difícil, desagradável e cientificamente comprometedora, cabe-me a mim, cabe-lhe a si decidir.

Por: Albino Bárbara





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