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Edição de 23-02-2017

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Arquivo: Edição de 16-02-2017

SECÇÃO: Opinião

Sinais do Tempo
Há toupeiras na rotunda

O mundo ora pula e avança, ora salta e recua, e aproveitando a inspiração dos poetas, mas se todo o mundo é composto de mudança... tomando novas qualidades... ainda um dia será uma criança. Na realidade assistimos a mudanças de comportamentos, a guerras que vão para além das cruzadas religiosas, à forma como a alta finança, também conhecida como fundos e mercados, influência ou asfixia a política social dos países dela dependente.
Recentemente, o Brexit e a eleição de Trump quase nos fizeram esquecer a guerra da Síria, as intervenções bombistas ou os ataques armados em espaços urbanos do mundo dito civilizado, que julgávamos de elevada segurança e intransponível. De repente sentimo-nos frágeis, como se o chão que pisamos estivesse cheio de cavernas escavadas por toupeiras, que a qualquer momento podem começar a explodir.
A ferida imposta à velha Europa dói, corrói e não sara.
Os refugiados fogem de países dilacerados ora pelas guerras, ora pelas misérias com os quais se fazem as riquezas de muitos outros, que as lavam no mundo da alta finança sob o nome simpático de mercados.
Aí surge o egoísmo de alguns países cujos líderes, para agradar a algumas vontades populares, assumem em pleno a versão mais narcisista e egocentrista sob a qual pretendem impor exceções, desde que os beneficiem.
Os ingleses são o exemplo deste jogo em que deixarão de estar onde já não estavam de corpo e alma, mas onde esperam continuar a estar se obtiverem vantagens, evitando assim as taxas e mantendo a City dos edifícios reluzentes como o centro das decisões e das manobras de bastidores no que diz respeito ao vil metal, de que dependem os tais fundos e os tais mercados. Nada como só estar quando nos interessa e nos beneficia.
Fechar fronteiras? Impor taxas alfandegárias? Restringir circulação de dinheiro? Refugiados? Claro, mas só no sentido que melhor nos convier. Servem alguns emigrantes pré selecionados, limpos e que trabalhem de sol a sol, que tenham filhos, muitos de preferência, dos quais não consigam cuidar, para os entregar a casais britânicos estéreis. Brexit só assim fará sentido.
Mas se das ilhas nem bom vento nem bom casamento, então que dizer das Américas. Trump ganhou o coração dos americanos, limitando-se a amplificar as suas vontades. Trump é de novo a América das oportunidades, ultra liberal, desrespeitadora de políticas solidárias, que evitando os consensos encerra fronteiras ou constrói muros. Os europeus, demasiado conservadores e agarrados a velhos ideais, carregados de falsas solidariedades, ainda não conseguiram perceber o fenómeno, mantendo uma atitude pouco recomendável de desvalorização e até de sarcasmo. Todos os dias os media aguardam mais uma decisão que se torne em notícia de primeira página. Trump é Trump e seria uma piada fácil afirmar que Trump é Tramp.
Concentrado nestes raciocínios dignos de um comentador da TV bem pago, estacionei em frente ao edifício abandonado do Hotel Turismo, mais um dos muitos que constituem a imagem de marca dos centros urbanos, contudo nem todos tão imponentes na dimensão e na importância estratégica. Pelas decisões e indecisões do Hotel passaram três primeiros-ministros e dois presidentes de câmara e com eles promessas e indiferenças diversas, mas o resultado por agora é a agonia. Detenho-me a relembrar as vidas que ali se viveram, os encontros e desencontros, as estratégias que ali se discutiram, os golpes palacianos que ali se desenharam, ou até os encontros fortuitos, posso ainda ouvir o ranger do soalho ou da porta do quarto a fechar.
Logo ali ao lado, a Guarda requalifica-se, mal posso esperar para ver o novo jardim com novas plantas e novas flores renováveis e as novas rotundas já anunciadas ou em construção.
Por falar em rotundas, há toupeiras na rotunda, como teriam ido lá parar, e que motivação questiono-me. Afinal tiveram que escavar muitos metros por debaixo de alcatrão sem uma única raiz até atingir a terra prometida. Mesmo nas ilhas pode ser difícil impedir a entrada de indesejados, tal como nas rotundas.

Por: João Santiago Correia





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