Última Hora | RSS RSS | Arquivo | Ficha Técnica | Classificados | Inquéritos | Fórum | Futebol | Tempo | Farmácias | Publicidade | Newsletter | Pesquisa Avançada | Contactos | Área de Assinantes
Edição de 11-10-2018
Pesquisa:

Arquivo: Edição de 04-10-2018

Secção: Opinião

Tresler
As forças do sexo fraco
Tempo de leitura: 4 m
Bookmark and Share
Aumentar Tipo de LetraDiminuir Tipo de Letra

1. Fraco: sem vigor, sem força, sem solidez ou consistência, diz o dicionário. Ser fraco é das características menos apreciadas num líder empresarial ou político ou numa empresa de liderança bicéfala (leia-se família). As anedotas apontam em geral para o ridículo do macho fraco mas numa época de mudança não tarda que as anedotas se invertam. Também as próprias instituições se fazem fracas a partir da fraqueza de um ou mais líderes ou das suas fricções (o fraco rei que “faz fraca a forte gente”, no exemplo de “Os Lusíadas”). A partir de certa idade os casais e as pequenas organizações olham uns para os outros a ver se se manifestam nos outros as fraquezas que verificam em si próprios, desejando secretamente presenciar nos outros dificuldades maiores ou chegando à humilde conclusão de que “afinal não estamos assim tão mal”.

A fraqueza do sexo forte (do macho) é no entanto aquilo que as últimas semanas mais têm projetado no universo mediático: os homens que em certo tempo ultrapassaram os “limites” no campo sexual (vedetas ou poderosos) veem-se, décadas passadas, acusados daquilo que supostamente até foi motivo de glória na altura dos acontecimentos. É por um lado o questionamento dos limites da sedução (até onde podemos ir e com que ritmo nos avanços relativamente a outra pessoa?) e por outro a incapacidade de prever que o tempo tem memória e um dia alguém irá desenterrar o nosso passado. Fica a ideia de que a sociedade enclausurada em que vivemos presos, entre vozes e bits, entre obrigações e registos, um dia pode apanhar um desses produtos que anda por aí a voar e transformá-lo em arma de poder arremessada contra nós. Qual é hoje o sexo forte?

2. Uma das figuras que historicamente melhor reflete (e combate) a fraqueza de género, numa forma paradoxalmente pujante e segura, é a bruxa, que ao longo dos séculos se afirma como uma forma de heterodoxia, ora tolerada ora combatida. Na Idade Média, após o combate às heresias, tem de haver algo que seja motivo de combate por parte da ortodoxia política e religiosa. É que a religião desconcerta e desilude quem vê partir marido e filhos para a guerra, quem se vê condenado à condição de servo sem direitos, quem nada pode diante da força da doença que todos ceifa, quem nada entende da liturgia em latim. Assim, paralelamente ao culto da religião, vai surgindo na Europa, sob a força das figuras femininas, o culto a outras entidades como o Diabo, o “Príncipe do Mundo”, em nome da necessidade de um milagre diante da desgraça: o que fazer quando nem de Deus se espera nada? Essas assembleias em frente a uma bruxa chegavam a ter centenas ou milhares de pessoas. Daí às perseguições da Inquisição e dos reis foi um passo. São aos milhares as “bruxas” que vão ter ao braseiro nos séculos XIV a XVII, muitas vezes simples desequilibradas ou loucas mas que a autoridade, numa necessidade de normalização e afirmação de poder, asseverava terem pacto com o demónio e serem culpadas da fome e da peste. O fim dos julgamentos por bruxaria é também um avanço dos tempos modernos, passando depois os casos para o âmbito da doença mental ou do vulgar crime e perdendo as autoridades religiosas jurisdição sobre as pessoas.

3. Também no ambiente do convento a bruxaria e os pactos com o diabo são um fenómeno que atormentará as mulheres ao longo de muitos séculos. O enclausuramento de raparigas no convento desde uma idade muito jovem por necessidades sociais e de ordenamento familiar é, nos séculos XVI a XVIII, uma excelente oportunidade para aparecerem casos de histeria, descontrole emocional, desespero total, transformados frequentemente em transportes místicos que são reforçados pelas reações de rejeição dos familiares e das religiosas mais próximas. A palavra “diabo” surge aplicada à mulher ao menor sintoma de incapacidade de autocontrolo: a missionação, a difamação e o confessionário faziam o resto, num terror que desconstruía rapidamente a personalidade e tornava a mulher numa marioneta ou num farrapo, às vezes um joguete nas mãos de clérigos com poder. E aquilo que começava por ser simplesmente um cansaço de estar no convento, uma vontade de estar lá fora numa idade jovem e numa época em que as viagens e a descoberta do mundo estimulavam a imaginação, acabava por oscilar ou para a depravação ou para aquilo que hoje chamaríamos depressão, em casos extremos a própria obsessão de estar possessa do diabo, à falta de outras explicações. A repressão, o isolamento, a humilhação afundavam ainda mais.

Sendo palavra quase sempre declinada no feminino pela ligação da mulher ao cuidar dos outros, como mãe ou ama, a bruxa tem nos seus antepassados a sibila e encerra em si uma sabedoria especial, entre a adivinhação, a descoberta dos efeitos das plantas e das drogas e a procura de “algo” para além disso. Esse “algo” que durante séculos a condenou. A fraqueza fez a força destas mulheres, força, no entanto, muitas vezes fatal.

(“La sorcière – A bruxa”, de Jules Michelet)

Por: Joaquim Igreja


Votar:
Resultado:
43 Votos
Imprimir Artigo
Enviar por Email
Comentário Privado
Comentário Publico
Adicionar Favoritos

Diga o que pensa sobre este artigo. O seu comentário será publicado online após aprovação da redacção.

Comentários Nome
Email
Código de VerificaçãoInsira os algarismos da figura
Anónimo
MEO Kanal 401262
© 2009 O Interior | Rua da Corredoura, 80 - R/C Direito C - 6300 Guarda | Telefone geral: 271 212 153 - Publicidade: 271 227 349 - fax: 271 223 222
Produzido por ardina.com, um produto da Dom Digital. Comentários sobre o site: webmaster@domdigital.pt.